24 de maio de 2019

Será que a Guiana conseguirá evitar 'maldição do petróleo' e virar o país mais rico do mundo?

Simon Maybin - BBC News
A descoberta de enormes reservas de petróleo na Guiana pode mudar o futuro do país
 
O segundo país mais pobre da América do Sul se prepara para uma mudança: um boom do setor petroleiro pode colocar a Guiana na lista oposta, aquela que reúne os países mais ricos.

Mas o país pode evitar a chamada "maldição do petróleo" e garantir que sua nova riqueza beneficie todos os guianenses?

"Muitas pessoas ainda entendem o quão grande isso é", disse o embaixador americano na Guiana, Perry Helloway, em uma recepção em novembro passado em Georgetown, capital do país, que é vizinho da Venezuela.

"Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) vai aumentar entre 300 % e 1.000 %. Isso é gigantesco. Será o país mais rico do hemisfério e, potencialmente, do mundo", afirmou.

O prognóstico do americano pode parecer exagerado, mas com uma população de apenas 750 mil pessoas, a riqueza per capita dos habitantes da Guiana tende a disparar.
 
Troy Thomas, da Transparência Internacional na Guiana, se diz preocupado com corrupção
 
E isso porque a ExxonMobil, principal operadora de petróleo da Guiana, diz ter descoberto uma reserva de petróleo de mais de 5,5 bilhões de barris nas águas do país no Oceano Atlântico.

'A maldição do petróleo'
Essa ex-colônia britânica - único país sul-americano que tem o inglês como língua oficial - tem altas taxas de desemprego e pobreza. Sem dúvida que a entrada de dinheiro na economia é bem-vinda. Mas a história deixa uma advertência para a Guiana.

É notório que a descoberta do petróleo em outros países em desenvolvimento levou a um aumento da corrupção. Além disso, a nova riqueza gerada pela exploração do produto foi desperdiçada ou beneficiou apenas uma pequena parcela da sociedade.

Há também o risco de que o boom das exportações de petróleo provoque uma valorização excessiva da moeda local , prejudicando a competitividade de outros setores da economia e eventualmente reduzindo o tecido produtivo do país.

"Na Guiana, a corrupção é desenfreada", diz Troy Thomas, diretor do escritório da ONG Transparência Internacional no país. Ele se diz "bastante preocupado" com a "maldição do petróleo".

O país pode evitar a chamada maldição do petróleo e garantir que os benefícios cheguem a todos os guianenses?
 
Uma recente crise política no país é vista por alguns como um sinal precoce dos efeitos dessa "maldição".

Em dezembro, a coalizão governista perdeu uma moção de não confiança no Congresso depois que um dos seus parlamentares votou com a oposição. O governo decidiu desafiar a votação nos tribunais, em vez de convocar eleições.

A decisão desencadeou uma série de protestos.

"Tudo que pedimos é que o governo respeite a Constituição", disse à BBC uma manifestante, que estava parada em frente ao prédio do governo. "Os políticos só querem permanecer no poder e controlar o dinheiro do petróleo", completa.

A batalha continua e, na próxima semana, a Corte de Justiça do Caribe deve analisar a última apelação do caso.
 
Vincent Adams diz que a educação é fundamental para evitar cair na armadilha em que outros países já caíram
 
Aposta na educação
"Temos visto as experiências em outros países", diz Vincent Adams, diretor da Agência de Proteção Ambiental da Guiana, que trabalhou por três décadas no Departamento de Energia dos Estados Unidos. "Muitos países conseguiram muita riqueza em petróleo, mas alguns estão em situação pior do que antes da descoberta do recurso."

Para Adams, há uma chave para evitar essa armadilha: "Educação, educação, educação", diz. "É o melhor investimento que este país ou qualquer país pode fazer."

Adams está promovendo a renovação da faculdade de engenharia da Universidade da Guiana, mas preparar jovens guianenses para essa lucrativa nova indústria não é fácil.

"Infelizmente não temos laboratórios para um programa de engenharia de petróleo", diz Elana Trim, reitora da universidade.

Também tem sido um desafio atrair talentos acadêmicos com experiência relevante, afirma Trim. "Nossos salários não são tão altos. Quando as pessoas pensam se interessam em concorrer a vagas na Universidade da Guiana e as informamos sobre nosso nível salarial, elas desistem", diz a reitora.

Ativista Colin Marks teme que a nova riqueza potencial não beneficie comunidades mais pobres
 
No entanto, mesmo nesta fase inicial, a indústria petrolífera de Guiana já contratou estudantes de outras especialidades de engenharia. Dois anos atrás, 10 deles conseguiram empregos em uma empresa de petróleo. No ano passado, a mesma companhia contratou mais 20 profissionais.

"As empresas estão contratando nossos estudantes como se fossem pão quente", diz Trim.

Ceticismo
Em Sofia, um dos bairros mais pobres de Georgetown, há um certo ceticismo em relação ao futuro do país.

Algumas das casas do local, bastante precárias, tiveram acesso a eletricidade e a água corrente apenas neste século.

"Cerca de 10% da população de Georgetown mora nessa comunidade, mas os recursos para a área são escassos ", diz Colin Marks, que administra o centro de juventude no bairro.

Isso ajuda a explicar o ceticismo sobre a extensão dos benefícios do petróleo.

"A maioria das pessoas é sensível a isso porque há mais pontos negativos (na exploração de petróleo) para Guiana do que positivos. E isso acontece por causa da política. Você viu o que aconteceu na Guiné, na Nigéria, na Venezuela, então as pessoas não estão muito certas ", diz Marks.

"Em uma comunidade como essa, só queremos saber se teremos uma parte do dinheiro do petróleo, queremos nos beneficiar disso", conclui.

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