29 de agosto de 2019

Transformações na Engenharia e empreendedorismo marcam sucesso do 3º EFEEng

Clube de Engenharia
 
Auditório lotado para a palestra “A educação e a Engenharia hoje”, ministrada pelo professor Luiz Bevilacqua. Foto: Fernando Alvim

Em sua terceira edição, o Encontro Fluminense de Estudantes de Engenharia, realizado dia 17 de agosto, lotou o Clube para discutir temas sensíveis para a engenharia nacional e seus reflexos na formação e na vida dos futuros engenheiros. Com o tema “Transformação na Engenharia: Empreendedorismo, Tecnologia e responsabilidade socioambiental”, o evento reuniu centenas de participantes ao longo de um dia de programação com palestras e debates sobre a realidade dos jovens profissionais em um país que atravessa momento delicado de sua história, com impactos significativos nas atividades relacionadas às engenharias. Mais uma vez, a organização do evento foi dos próprios estudantes, reunidos na Secretaria de Apoio ao Estudante de engenharia (SAE). 

Pedro Celestino, presidente do Clube (ao microfone) deu as boas-vindas aos participantes. Também participaram da mesa de abertura (da esquerda para a direita) o vice-presidente do Clube, Márcio Fortes; o professor Luiz Bevilacqua, primeiro palestrante; e Stelberto Soares, coordenador da SAE. Foto: Fernando Alvim

A educação e a Engenharia hoje

Luiz Bevilacqua, Professor Emérito da UFRJ, criador do programa de pós-graduação do Laboratório Nacional de Computação Científica e da área de avaliação multidisciplinar (de cursos de pós-graduação) da CAPES, membro titular da Academia Brasileira de Ciências, ministrou a primeira palestra do dia “A Educação e a Engenharia hoje”. Foto: Fernando Alvim

Geopolítica do Petróleo 
 

O 3º EFEEng também investiu na compreensão de mundo e do papel protagonista do engenheiro no balanço de forças globais. O professor de Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Maurício Metri (foto), trouxe para o evento um panorama geopolítico histórico e atual. Trabalhou o conceito de que a economia é um campo estratégico na resolução de problemas geopolíticos e, mais que isso, uma arma de guerra quando usada como forma de sanções financeiras ou bloqueio de bens econômicos e de mercado, instrumentos de contenção, enquadramento e vitória no campo internacional.

No centro disso está o Petróleo. Descoberto, extraído e transformado por engenheiros e geólogos, ele está entre os temas mais sensíveis na área das relações internacionais desde a 1ª Guerra Mundial. “A geopolítica e as relações internacionais são pouco estudadas nas grades curriculares de engenharia, mas são centrais nesses campos. No Brasil, a relação com a geopolítica não é tão percebida porque o país, a despeito do seu tamanho, teve poucos momentos de uma política externa independente e um maior grau de autonomia no sistema internacional”, explicou Metri.  

Internet das coisas 

A professora Ercília De Stefano tratou da “Internet das Coisas” Foto: Diogo Valadares/SAE

“A Internet das Coisas é uma enorme rede de dispositivos conectados e está inserida no contexto da indústria 4.0”, definiu a professora Ercília De Stefano, Mestre em Engenharia de Sistemas pela UFRJ/COPPE,  Doutora em Engenharia de Transportes pela UFRJ/COPPE e Pós-doutora em Sistemas de Gestão Sustentáveis pela UFF. Durante a palestra, Ercília destacou a aplicabilidade da IoT na indústria 4.0 no Brasil. Para Ercília “Com a Internet das Coisas, a produtividade do maquinário pode ser otimizada e até mesmo automatizada. Além disso, setores podem ser mapeados para definir a necessidade de otimização e demanda de suprimentos. Na internet das coisas trabalhamos com tempo real e automaticamente o software muda de rota se for necessário.” explicou.

Como exemplo, citou a  otimização da logística: “Com a Internet das Coisas, caminhões, contêineres, caixas e até mesmo esteiras podem ser monitoradas com informações úteis.” disse. A palestrante mostrou que as novas tecnologias da IoT podem contribuir até na medicina. “A Internet das Coisas pode melhorar tanto a qualidade de vida dos pacientes quanto otimizar equipamentos de medição e coleta de dados de exames.” afirmou.

No espaço reservado aos debates, Lucas Marques, estudante  de engenharia mecânica da UFRJ, questionou sobre o aumento do desemprego em detrimento da Indústria 4.0 e surgimento de  novas tecnologias como robôs. Ercília respondeu: “Com a indústria 4.0 se criam novas profissões. O impacto já é uma realidade e os profissionais precisam se adequar às novas possibilidades.” esclareceu a especialista, que  defende o investimento em educação e capacitação técnica para acompanhar o desenvolvimento tecnológico, como a popularização de cursos técnicos em robótica por exemplo. Para Ercília, o país e a sociedade precisam estar preparados para os desafios do futuro.

O mal do século  

Depressão na Engenharia: precisamos falar sobre isso!” foi o tema de Carlos Alberto Franco, Professor Associado da UFRJ. Foto: Diogo Valadares/SAE

Em um mundo em constante mudança, a saúde dos engenheiros e estudantes está em xeque. Os desafios da vida profissional e cidadã se acumulam e se transformam em uma fonte de frustração e tristeza para muitos, podendo levar a distúrbios que, se não tratados, podem comprometer profundamente toda a vida dos profissionais. Atento à saúde física e mental dos engenheiros, o 3º EFEEng convidou Carlos Alberto Franco, Professor Associado da UFRJ e responsável pelo site SENSES Neurociências e Aprendizagem, para tratar do chamado “Mal do Século”.

O professor destacou que estudantes e recém-formados hoje estão entre os grupos que se expõem a situações de estresse que podem levar à depressão. “Uma perda, uma dificuldade de trabalho, uma estrutura competitiva dentro da empresa, a tentativa de empreender e ter dificuldade de financiamento e fazer a empresa dar certo. Tudo que gere um processo ameaçador ao processo afetivo e social de alguém pode levar a pessoa à depressão”, alerta o professor. E destacou os sinais e indícios de que alguém está entrando em um processo depressivo e aconselhou a todos que se mantenham vigilantes, dada a gravidade do problema hoje. 

Empreendedorismo 

Felipe Soares, graduado em Engenharia Civil pelo Centro Universitário (CESMAC), Técnico de Segurança (SENAC/AL), Coaching pela Brascoaching e Especialista em estruturas de concreto  armado falou sobre “Empreendedorismo social – carreiras com propósitos”.  Foto: Diogo Valadares/SAE

 Roda de conversa

Estudantes de faculdades públicas e privadas se reuniram para debater temas que os mobilizam cotidianamente. Foto: Diogo Valadares/SAE

No início da tarde de sábado, estudantes de universidades públicas e privadas protagonizaram a roda de conversa, momento de  troca de informações, experiências e percepções sobre temas que foram discutidos nos pré-encontros realizados por diversas escolas de engenharia durante os seis meses que antecederam o evento. A atividade contou com a  participação especial de estudantes da Universidade de São Paulo – USP.

Maria Laura, Estudante de Engenharia de Minas da USP e presidente do grêmio do seu curso, elogiou a iniciativa da SAE: “O EFEEng é um espaço incrível. Não temos isso em São Paulo. É muito importante esse espaço para pensar a Engenharia como um todo e o papel do engenheiro. O que estamos fazendo aqui, além de propor soluções práticas para nosso dia a dia como estudante, é um ato de defesa das universidades”.

Luiz Taranto informou que os assuntos serão reunidos em um documento e suas soluções serão reivindicadas junto às instituições. “Essa ideia da roda de conversa surgiu ano passado, através dos núcleos da SAE nas universidades. É uma maneira de discutirmos temas que cotidianamente mobilizam os estudantes”.

Stelberto Soares, coordenador da SAE, ressaltou a importância da organização e do debate de temas que mudam de acordo com o momento do País: “Fundamental é que nós nos juntemos, para alinhar um caminho de desenvolvimento. Vocês estão em um momento crítico da Engenharia Nacional. Se estivéssemos com pleno emprego, ainda assim estaria faltando engenheiros. Em 2008, estava faltando engenheiros e a nossa preocupação era a possibilidade de o País passar a importar engenheiros,” lembrou.

Rafael Franco, estudante da UFF Niterói, apresentou todos os assuntos levantados durante a roda de conversa:  as nuances das grades curriculares e como são construídas, com especial atenção às faculdades privadas que constroem suas grades de forma a dificultar a saída para outras; as dificuldades relacionadas à disparidade em termos de dificuldade da matemática do ensino básico da matemática do ensino superior, que geram altos índices de reprovação e evasão; a ocorrência de professores “tapa-buraco”; a importância do ensino técnico e a possibilidade de se utilizar disciplinas cursadas em ensino técnico na graduação; a presença massiva de professores não fluentes em português no ciclo básico, entre outros assuntos. 

Inovação

“Inovação como agente de transformação socioambiental” foi tema da palestra do  Engenheiro ambiental Lucas Getirana. Foto: Diogo Valadares/SAE

A apresentação tratou da aplicação de tecnologias a favor do bem-estar social, especialmente a favor de populações em situação de vulnerabilidade, além do aumento produtivo tecnológico como fator em pressão positiva na produção de capital interno e distribuição de trabalho e renda. “O Brasil é um dos países que têm mais recursos para serem explorados,” disse. Mas, para ele, nosso país ainda não tem um bom plano de inovação e transformação socioambiental. “ Enquanto o Brasil não estabelecer uma política nacional de inovação, não saberemos por onde nos guiar. Ficamos no meio-termo,” lamentou.

O Brasil ficou para trás na questão da inovação. Lucas comparou nosso país com a Coreia do Sul,  que há algumas décadas era um país arrasado pela pobreza, perdia para o Brasil no ranking global de desenvolvimento, mudou radicalmente e o entrou para o time das nações desenvolvidas. Para o palestrante, enquanto na Coréia pressões geopolíticas favoreceram a construção de soberania, no  Brasil sofre pressões geopolíticas funcionam contra a produção de soberania nacional. Para Lucas, o Brasil ainda é refém de tecnologias estrangeiras.

O desafio do futuro do trabalho 

 
O 3º EFEEng foi encerrado com a palestra da professora Margarida Castelló (foto), que tinha como desafio propor um debate sobre “Que profissional você quer ser? – As novas demandas de um Engenheiro”. Para tratar do tema, Castelló abordou o momento chave que vivemos no que diz respeito ao avanço de tecnologias que certamente aumentarão o desemprego para engenheiros e para a sociedade em geral, bem como as muitas exigências pouco realistas que envolvem os profissionais recém formados. “Estamos diante de tecnologias disruptivas, que vão romper com o caminhar linear da Engenharia. Elas já são realidade. Internet móvel, automação de trabalho do conhecimento, Internet das Coisas, Tecnologia em nuvem, Robótica avançada, veículos autônomos, impressão 3D, energia renovável… Todas essas tecnologias já são realidade e, enquanto isso, continuamos nos bancos da faculdade fazendo derivada integral”, criticou a professora.

Segundo Castelló, tentar resistir à substituição do trabalho humano pelo robótico é inútil. Para superar esse momento crítico, ela aposta naquilo que os robôs não têm e jamais terão: a nossa humanidade. “As máquinas vão continuar tomando o nosso lugar se nós insistirmos em sermos racionais. Em detenção de conhecimento e tarefas manuais repetitivas, eles são muito melhores que a gente. Temos que investir naquilo que nós temos de diferencial: empatia, sensibilidade”, apontou. Segundo a professora, “os postos de trabalho mais seguros são aqueles capazes de resolver problemas pensando fora da caixa, indo além das fronteiras que existiam quando o problema apareceu. Preocupe-se menos com credenciais, procure por oportunidades que se alinhem com seus interesses e reaja aos fatos a medida que eles forem aparecendo no presente”, aconselhou.    

Encontro também contou com exposição de trabalhos acadêmicos. 
Foto: Fernando Alvim

Encerramento
 
No encerramento do encontro, o  coordenador da SAE, José Stelberto Soares, agradeceu a presença de todos os participantes e ressaltou que o Clube de Engenharia está de portas abertas para receber estudantes de engenharia não só durante o EFEEng, mas em todos os seus debates técnicos e políticos.  “Quando o Clube abre as portas para vocês é para disponibilizar informações e recebê-los para que contribuam ativamente. Esperamos que esse movimento continue a crescer, com mais debates. Muito obrigado a todos que participaram.” ressaltou Stelberto, que nos últimos seis meses participou ativamente da organização do evento e de debates nas universidades durante os pré-encontros.

A Comissão Organizadora reuniu-se ao final do encontro para comemorar o trabalho bem sucedido. No centro, de calça branca, Luiz Taranto, Secretário Executivo da SAE desde a sua criação, em 2016.  Foto: Diogo Valadares/SAE

 

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