13 de setembro de 2019

Estádio do Pacaembu, exemplo virtuoso da integração entre arquitetura e geologia

Redação EcoDebate - artigo de Álvaro Rodrigues dos Santos
 
 
Em atendimento a solicitação a mim feita pela arquiteta Sol Camacho, como suporte a projeto que desenvolve tendo como tema o estádio do Pacaembu, fiz um “mergulho” em pesquisas sobre essa odisséia arquitetônica paulista, com base em que elaborei esse artigo, o qual reputo bastante oportuno para exemplificar as indispensáveis boas relações entre a Arquitetura/Urbanismo e a Geologia. Além, claro, da oportunidade do registro histórico e da divulgação de uma obra e um contexto de bairro que marcaram virtuosamente a história do urbanismo paulistano.

Com pleno reconhecimento da sociedade paulista o Estádio do Pacaembu é popularmente louvado como o grande patrimônio histórico-cultural do esporte no Estado, especialmente pelo que representou e por seu enorme conteúdo emocional na história do futebol paulista, tendo esse sido o motivo destacado de seu tombamento pelo CONPRESP (1988) e pelo CONDEPHAAT (1998).

Reconhecido esse aspecto, há, no entanto, que também se destacar o extraordinário patrimônio arquitetônico representado pelo Estádio do Pacaembu; aspecto que, destaque-se, não passou despercebido dos termos oficiais dos dois atos de tombamento referidos. No âmbito de sua qualidade arquitetônica, considere-se especialmente a perfeita harmonização do projeto e do empreendimento com as feições naturais de ordem geológica e geomorfológica do local em que foi implantado.

Vale aqui reproduzir os conteúdos das duas resoluções de tombamento que tratam essa questão:

CONPRESP – Resolução 04/88

“Artigo 1o – Fica tombado como bem de interesse histórico, cultural, arquitetônico e ambiental, o ESTÁDIO MUNICIPAL “PAULO MACHADO DE CARVALHO”, marco cultural na história desportiva e amostragem do estilo arquitetônico da Cidade de São Paulo.”

CONDEPHAAT – Resolução SC 05/98

“Considerando a importância do Conjunto Esportivo do Pacaembu para a história do esporte paulista, cujas origens remontam a iniciativa de educação pelo esporte de jovens paulistanos, a realização de campeonatos e competições esportivas de caráter nacional e a solenidades cívicas;

Considerando a qualidade de sua arquitetura e de sua implantação que soube inserir projeto de grandes dimensões na paisagem, respeitando-a e ao mesmo tempo valorizando urbanisticamente o bairro do Pacaembu,”

ARQUITETURA E GEOLOGIA

Entendamos, por princípio, o meio físico geológico como o conjunto maior de fatores geológicos propriamente ditos, geomorfológicos, hidrológicos e pedológicos, consideradas todas suas características físicas e seus processos dinâmicos pretéritos e atuais.

Não há intervenção humana no meio físico geológico natural que não provoque algum tipo de desequilíbrio. O corte em uma encosta, o peso de uma barragem, o vazio provocado pela escavação de um túnel, a impermeabilização do solo causada pela cidade, o rebaixamento forçado do lençol d’água subterrâneo, o desmatamento de uma região; enfim, ao modificar as condições naturais preexistentes o homem está interferindo em um estado de equilíbrio dinâmico natural. Como resposta à ação do desequilíbrio há uma mobilização de forças naturais orientadas, como reação, a buscar um novo estado de equilíbrio. Caso esse empenho de busca de um novo equilíbrio se dê isoladamente pela própria Natureza, as consequências para o homem costumam ser catastróficas. Deslizamentos, avarias e acidentes em fundações, recalques de terrenos, colapso de obras subterrâneas, patologias estruturais, violentos processos erosivos, enchentes, etc. Para que essas consequências negativas não aconteçam é necessário que o homem conheça e entenda perfeitamente as características e processos naturais do meio geológico em que está interferindo, de tal forma a melhor adequar seus projetos e estabelecer, ele próprio, uma indispensável condição de equilíbrio entre empreendimento e forças naturais.

Importantíssimo, nesse contexto, termos em conta que os conceitos orientadores de como vão se dar as relações de um determinado empreendimento com o meio natural com o qual interfere são definidos primeira e originalmente nas concepções arquitetônicas que lhe são propostas. É essa concepção arquitetônica, determinante da disposição espacial e do ajuste do empreendimento ao terreno e suas características fisiográficas, que também influenciará, por decorrência conceitual, a escolha dos procedimentos construtivos e as futuras regras de operação e manutenção; todos esses, elementos essenciais nas inter-relações com o meio natural.

Ou seja, será a concepção arquitetônica de partida que determinará o êxito ou o fracasso do empreendimento naquilo que se refere às suas relações com o ambiente geológico-geotécnico, ou de uma forma mais ampla, naquilo que se refere à sua sustentabilidade ambiental. Do que pode se concluir que será essa concepção arquitetônica que, na maioria dos casos, definirá o êxito ou o fracasso financeiro e funcional do empreendimento.

Alguns exemplos práticos são esclarecedores. Ao insistentemente exigir a produção de áreas planas através de procedimentos generalizados de terraplenagem, os projetos arquitetônicos associados à expansão urbana, seja habitacional, seja empresarial, instalados em áreas de relevo mais acentuado tem trabalhado com uma cultura de terra arrasada. Resultado, instalação de áreas de risco a deslizamentos, exposição dos solos mais profundos extremamente susceptíveis á erosão a intensos processos erosivos em cortes, aterros e bota-foras, deterioração precoce da infraestrutura instalada, assoreamento de drenagens, favorecimento de enchentes, etc. Sem dúvida, uma concepção urbanística e arquitetônica orientada conceitualmente para relevos mais acentuados evitaria, de início, todos esses problemas.

Vários outros exemplos poderiam ser relatados, todos testemunhando a extrema necessidade da arquitetura e do urbanismo incorporarem em sua prática os cuidados com as características geológicas e hidrológicas dos terrenos afetados. Como concisa diretriz, podemos entender que está colocado o seguinte desafio à arquitetura: usar a ousadia e a criatividade para adequar seus projetos à Natureza, em vez de, burocraticamente, pretender adequar a Natureza a seus projetos.

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