27 de setembro de 2019

Irradiação nuclear pode reverter 40% perdas de alimentos

Por Davi de Souza
A questão de perdas de alimentos é um problema mundial. Segundo a ONU, entre um quarto e um terço da produção anual no globo para o consumo humano se perde ou é desperdiçado. O Brasil, infelizmente, não escapa desse cenário. “As nossas perdas estão entre 30% e 40%, que ocorrem entre a produção e a mesa do consumidor”, alerta o presidente da Sociedade Brasileira de Proteção Radiológica (SBPR), Marcos Amaral. Uma das medidas que podem ajudar a reverter esse quadro é a utilização da tecnologia nuclear para irradiação dos alimentos. Hoje, o país ainda não tem muitos irradiadores para esta finalidade, mas a ideia é estimular o debate sobre o tema. Por isso, a SBPR vai realizar no dia 3 de outubro, em Maringá (PR),  o I Simpósio Brasileiro de Tecnologia para Preservação de Alimentos por Irradiação. “Essa é uma prática totalmente segura e recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e também pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)”, esclareceu Amaral. “É mais do que demonstrado que trata-se de uma prática segura e desejável para o controle da qualidade da saúde de diferentes tipos de alimentos”, complementou.

Como surgiu a ideia de realizar o simpósio sobre o tema?

A ideia surgiu a partir de uma palestra do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), apresentando a política de desenvolvimento do Estado para o setor nuclear, publicada em dezembro e reeditada recentemente pelo governo do presidente Bolsonaro. Nessa política, ficou demonstrada a atuação do GSI junto com os coordenadores de vários ministérios em diferentes setores de aplicação da tecnologia nuclear. O Grupo de Trabalho 7, coordenado pelo Ministério de Agricultura, trata da aplicação da energia nuclear na agricultura.

Também tem o fato de que o estado do Paraná tem uma agricultura muito forte. A agricultura é responsável pela manutenção dos resultados positivos da balança comercial brasileira. Identificarmos uma ligação direta e percebemos que seria interessante realizar esse primeiro simpósio no Paraná. Outros virão. Vamos analisar os resultados deste primeiro simpósio e devemos fazer outros eventos nas demais regiões. Gostaria também de destacar o apoio que estamos recebendo da Associação Brasileira para Desenvolvimento das Atividades Nucleares (ABDAN), liderada pelo Celso Cunha. Tem sido fantástico o apoio e, juntos, vamos promover muitos simpósios para esclarecer especialistas de diversas áreas e a população.

Como está o nível de utilização da tecnologia nuclear para irradiação de alimentos no mundo?

Essa tecnologia já tem mais de 60 anos e é muito utilizada em vários países desenvolvidos e em desenvolvimento. As frutas que entram nos Estados Unidos, por exemplo, são sujeitas a rigorosos controles de qualidade. O Brasil exporta alimentos, como frutas, em quantidade muito menor do que países asiáticos, como o Vietnã.

O Vietnã é um exemplo bem claro da aplicação da irradiação em alimentos. Eles conseguem eliminar pragas, bactérias e doenças. Com isso, o alimento exportado se torna iminentemente seguro. É justamente o que os países da América do Norte querem: que os alimentos comprados dos países em desenvolvimento sejam seguros. O Vietnã, há cerca de 20 anos, produzia cerca de 900 toneladas de alimentos irradiados. Hoje, esse volume é de 14 mil toneladas. Eles exportam tudo isso para os Estados Unidos. Foi um salto na economia vietnamita. O Brasil agora tem condição de fazer a mesma coisa. O ideal seria espalhar, de Norte a Sul do nosso país, conjunto de irradiadores para atender os pequenos produtores e agricultores.

E aqui no Brasil? Em que passo está a utilização de irradiação em alimentos?

O Brasil não tem muitos irradiadores. São pouquíssimos, aliás. Para irradiação de alimentos, esse número é muito reduzido. Hoje, o brasileiro consome os alimentos irradiados através das especiarias, como pimentas e ervas. É mais do que demonstrado que trata-se de uma prática segura e desejável para o controle da qualidade da saúde de diferentes tipos de alimentos. Mas, infelizmente, não temos essa prática desenvolvida no Brasil. O país é um grande produtor de alimentos, mas poderia produzir muito mais. 

Até que ponto o Brasil poderia aumentar sua produção de alimentos com o maior uso da irradiação?

As nossas perdas estão entre 30% e 40%, que ocorrem entre a produção e a mesa do consumidor. Poderíamos reduzir essas perdas, regular o mercado e transportar por distâncias maiores usando navios (que são mais baratos que os aviões). Nossas frutas poderiam ir por navios até à Ásia, sem nenhum problema. Infelizmente, o Brasil não tem expandido o uso dessa tecnologia até então. Mas agora, o uso da tecnologia nuclear na agricultura faz parte de uma política de Estado. Então, como presidente da SBPR, eu assumi essa missão de contribuir com esse grupo de trabalho. 

O senhor pode nos revelar alguns dos especialistas que participarão do simpósio?

Vamos trazer os coordenadores do grupo do GSI, o superintendente do Instituto de Pesquisa Energéticas Nucleares (IPEN), Dr. Wilson Calvo, o ex-diretor adjunto da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Aldo Malavasi, o especialista em radiação de alimentos, Gabriel Alô, e outros especialistas. Isto fará com que o empresariado local da agroindústria e as autoridades do Paraná se instruam ao longo de todo o simpósio. Ao final do dia, teremos uma mesa redonda para discutir a implementação de um irradiador. 

O senhor poderia nos citar alguns casos de aplicação da tecnologia nuclear na irradiação de alimentos?

Quando você irradia a carne da tilápia, consegue eliminar várias verminoses e bactérias, além de aumentar sua durabilidade. Assim, é possível garantir que o produto fique isento de qualquer microrganismo nocivo à saúde humana. Outra grande aplicação é na batata, que pode durar por mais tempo sem se deteriorar. A carne embalada também pode ser tranquilamente irradiada, sem nenhum problema. 

Outro exemplo: nas UTIs, é fundamental que os alimentos de pacientes de maior risco sejam isentos de qualquer contaminação bacteriana. Os alimentos que são irradiados são inerentemente seguros.

O Brasil é o maior exportador de frango do mundo. A irradiação também poderia ser aplicada a esse setor, correto?

O frango apresenta uma preocupação na saúde por conta da bactéria Salmonella. A irradiação de alimentos elimina a Salmonella e aumenta a vida de prateleira do frango resfriado por mais de cinco vezes. A Sadia realizou, no passado, alguns testes com o Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP. A Sadia definiu que, durante 15 dias, a carne  de frango irradiada não sofre nenhuma alteração de sabor. 

Este é um tema ainda pouco discutido no Brasil e muitas pessoas ainda não sabem como é questão de segurança dos alimentos irradiados. O senhor poderia nos explicar esse aspecto?

São dois pontos importantes. O primeiro deles é sobre a operação do equipamento em si. O irradiador é um acelerador de elétrons ou uma fonte. Eles ficam dentro de uma estrutura blindada, como se fosse um raio X. Assim, o único a receber a radiação é o alimento. A operação é toda feita por computadores. 

O segundo ponto é a segurança do alimento irradiado. O alimento recebe uma dose de radiação necessária e suficiente para eliminar os microrganismos, bactérias e pragas. Nada mais do que isso. Essa radiação é feita a frio, não aquece o alimento, preserva as condições de nutrição e não produz outro constituinte que seja nocivo.

Essa é uma prática totalmente segura e recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e também pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Aqui no Brasil, é recomendada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
 
 

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