04 de outubro de 2019

TECNOLOGIA QUE SERÁ USADA NA CENTRAL NUCLEAR DE PERNAMBUCO GARANTE A SEGURANÇA DO RIO SÃO FRANCISCO 02. OUT, 2019 1 COMENTÁRIO Por Davi de Souza (dav

Por Davi de Souza - PetroNoticias
Carlos-Mariz
 
O governo antecipou, na última semana, que pretende construir até seis usinas nucleares no Brasil até 2050. Conforme já publicamos, um dos locais escolhidos para receber uma das novas centrais é o município de Itacuruba (PE), às margens do Rio São Francisco. A proximidade do empreendimento com o Velho Chico tem sido usada como argumento de pessoas contrárias ao projeto, que alegam o risco de contaminação das águas. No entanto, o retrospecto da geração nuclear no mundo mostra que essa possibilidade não se concretizou em lugar algum. É o que afirma o conselheiro técnico da Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan), Carlos Mariz. “O mundo tem 444 usinas, das quais 60% em rios e operando há mais de 20 anos. Não se sabe de nenhuma contaminação até hoje”, disse. Além disso, Mariz explica que as próximas usinas nucleares do Brasil serão de terceira geração, que possuem dispositivos extras que impedem o vazamento de material radioativo para o meio ambiente.

Ele também rebate outros argumentos contrários à instalação da usina em Itacuruba e espanta temores em relação à possibilidade da cidade sofrer um desastre semelhante ao de Fukushima, em 2011, no Japão. “Se em Fukushima tivesse a tecnologia da terceira geração, a usina teria suportado e não aconteceria o acidente, mesmo com as consequências gravíssimas do terremoto e do tsunami. Isso já foi demonstrado. Essas novas usinas [de terceira geração] serão as que o Brasil vai implantar daqui para frente. São essas que estão sendo previstas para Itacuruba”, detalhou.

Uma das grandes preocupações dos críticos ao projeto de Itacuruba é com o Rio São Francisco, alertando para a possibilidade de contaminação das águas. Como o senhor rebate esse argumento?

Primeiro, acho importante situar as condições atuais das usinas nucleares no mundo. Existem 444 usinas em operação, 54 em construção, 111 em processo de aprovação e mais 330 em planejamento ao redor do mundo. Isso são dados atualizados de agosto de 2019 da World Nuclear Association (WNA). O setor nuclear mundial está em franca expansão. E essa expansão deve acelerar ainda mais, pelo o que temos visto, sobretudo por conta da questão climática e da segurança energética. 

Continuando nesse raciocínio, é importante frisar que 60% das usinas nucleares do mundo são situadas perto de rios. Por exemplo, o Rio Mississippi é o celeiro de alimento dos Estados Unidos e de grande parte do mundo e possui uma usina nuclear (Grand Gulf 1). Na França, das 58 usinas nucleares, 44 delas estão situadas em rios. Em outros países também. Ou seja, não é algo excepcional. No caso dos acidentes de usinas perto de rio, tivemos o caso de Three Mile Island [em 1979, nos EUA], onde não houve nenhuma interação com o rio ou com a população.

Hoje, é possível blindar tecnicamente uma usina nuclear, seja pelo projeto ou construindo as torres de refrigeração. Eu acho que existe uma grande falta de conhecimento das pessoas, que alarmam informações com o objetivo de amedrontar os que moram na região de Itacuruba. Não vejo nenhuma possibilidade prática [de contaminação do São Francisco]. Nunca aconteceu isso. O mundo tem 444 usinas, das quais 60% em rios e operando há mais de 20 anos. Não se sabe de nenhuma contaminação até hoje.

O senhor pode falar mais do aspecto de segurança operacional das usinas para evitar acidentes nos rios?

Usina Grand Gulf 1 fica às margens do Rio Mississippi

Quando você coloca uma torre de refrigeração, não existe a necessidade de jogar água no rio. Não volta água da usina para o rio. Então, por aí já dá para ver que não há como você contaminar o rio. O que existe é que, para complementar a evaporação, você pode puxar água do rio. Mas, mesmo assim, tudo isso é no sistema secundário, que não faz parte do sistema radioativo.

Além disso, as novas gerações de usinas que serão construídas no Brasil (III e III+) têm blindadores. No caso de um eventual grande acidente, a parte nuclear fica hermética dentro de um espaço, feito com o mesmo material de foguetes, além de toda a contenção que existe.

O acidente de Fukushima ainda é lembrando até os dias de hoje pelos críticos da energia nuclear e isso também serve de argumento para quem é contrário à instalação da usina em Pernambuco. Poderia comentar sobre isso?

Fukushima é uma demonstração da segurança nuclear. Porque naquela ocasião ocorreu um terremoto de escala 9, talvez o maior do Japão. Ele foi seguido de uma tsunami “bíblico”. Se esse terremoto tivesse acontecido no Rio São Francisco, com certeza teria derrubado as usinas e o reservatório de Sobradinho, provocando uma grande catástrofe. No Japão, as usinas resistiram a este impacto. Resistindo ao impacto, os japoneses fizeram o trabalho de retirar o calor residual, uma vez que não tinha energia ao redor por conta do grande terremoto. Só que este trabalho foi suspenso por conta do tsunami. E sabemos o que aconteceu depois. Mesmo assim, a população foi toda retirada e ninguém ficou contaminado.

Se em Fukushima tivesse a tecnologia da terceira geração, a usina teria suportado e não aconteceria o acidente, mesmo com as consequências gravíssimas do terremoto e do tsunami. Isso já foi demonstrado. Essas novas usinas [de terceira geração] serão as que o Brasil vai implantar daqui para frente. São essas que estão sendo previstas para Itacuruba.

A revista Forbes publicou um estudo em 2012 sobre a escala de segurança na produção de eletricidade. A fonte mais segura de todas foi a nuclear. O estudo contabilizou as mortes em acidentes envolvendo todas as fontes. Esse número foi dividido pela quantidade de KWh e fizeram um índice. Esse índice na fonte nuclear é baixíssimo. Com isso, eles concluíram que a geração mais segura do mundo é a nuclear.

Hoje, existe uma defesa muito forte das energias renováveis, por conta da questão climática. Como a energia nuclear poderia ser aproveitada em conjunto com essas fontes?

 
Foto eolica
 
Sem dúvida, as energias renováveis são parceiras importantes no atendimento à matriz energética. O problema é que elas são insuficientes porque são fontes que dependem do clima. Se não houver sol, como gerar energia? A matriz que depende exclusivamente das renováveis é insegura e, com certeza, vai provocar blecautes aqui e acolá.

O Brasil precisa de uma matriz inteligente e que dê segurança energética ao sistema. Os três pilares básicos de uma boa formação de matriz são: segurança energética, baixo custo e impacto ambiental. Compete ao Estado coordenar bem as ações, no sentido de que estes três pilares sejam bem satisfeitos.

Os críticos ao projeto de Itacuruba também afirmam que o preço da energia nuclear no Brasil é muito maior na comparação com as fontes renováveis e que aumentaria a conta de luz dos brasileiros. Gostaria que comentasse sobre isso.

Existe um pouco de falta de compreensão. As pessoas falam que o custo de eólica e solar são baixos por causa dos preços de leilão. Na verdade, isso engana um pouco a população. Existe um custo escondido nessas fontes, que é aquele que compensa as intermitências. Isso tem encarecido muito a energia e quem está pagando essa conta é o consumidor. A Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica] já está procurando corrigir esse efeito por meio de novas resoluções.

Na verdade, o custo de eólica e solar é muito mais alto do que o preço exibido nos leilões. Isso acontece no Brasil e no resto do mundo também. A Alemanha, por exemplo, tem a maior tarifa residencial da Europa. E é também a maior poluidora. Ou seja, usa carvão lignito em grande quantidade porque não consegue se livrar da grande intermitência das fontes renováveis.

O preço da energia de Angra 3 (R$ 480 por MWh) também é apontado como sendo muito superior em relação ao preço internacional e às demais fontes…

 
Ilustração mostra como será Angra 3 após concluída

Acho que as pessoas contrárias à fonte nuclear usam esse argumento do custo na tentativa de distorcer. Isso é um grande engano. O preço de Angra 3 é um caso particular do momento. Com as novas usinas nucleares, esse preço será menor. Mesmo assim, você não pode comparar energia intermitente com energia de base. São coisas completamente diferentes.

Além disso, quem substitui a energia fóssil são as nucleares. O preço da energia fóssil chega até R$ 1200 por MWh. A média é de R$ 700 por MWh. Mesmo com os R$ 480 MW/h de Angra 3, já será uma grande economia em relação ao preço das térmicas. Será uma economia de recursos e na balança de pagamentos (já que deixaremos de importar óleo).

Já que o senhor falou sobre fontes fósseis, gostaria que falasse também sobre a questão de emissão de gases de efeito estufa na geração nuclear. Alguns alegam que a fonte produz esses gases durante fases como mineração, enriquecimento, fabricação de pastilhas e descomissionamento.

O trabalho de detectar a emissão de gases do efeito estufa das tecnologias é feito pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Ora, questionar a ONU sobre isso seria ridículo. Todo esse levantamento é feito desde a mineração, passando por todos os demais processos. Eles calculam quanto a fonte produz de gases de efeito estufa. Segundo o IPCC, a nuclear é uma das menores emissoras.

O governo já sinalizou que vai construir até seis novas usinas nucleares até 2050. Dado esse fato, como resolver a questão do descarte do material irradiado?

A questão do material irradiado não é uma prerrogativa das usinas nucleares. Hoje, no Brasil, existe material irradiado das áreas médica, industrial e agricultura. No caso da geração nuclear, existe uma vantagem adicional, porque todo o material irradiado é contabilizado e guardado sob segurança. Não existe problema técnico quanto a isso. O que o Brasil vai precisar no futuro é de um depositório final ou intermediário. Tecnicamente falando, essa é uma questão resolvida. Nunca houve problema ocorrido por conta da guarda do combustível usado. Qualquer país sabe como lidar com isso. O problema agora é de viés político para decidir onde será construído esse depositório.

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