A eletricidade costuma ser percebida apenas quando falha. No cotidiano, ela é invisível: está sempre disponível, silenciosa e aparentemente garantida. Mas basta uma interrupção para revelar o quanto o funcionamento do varejo, da indústria e das cidades depende de um fornecimento estável de energia.
Energia elétrica não é um detalhe operacional. É uma infraestrutura básica, tão estratégica quanto transporte, saneamento ou telecomunicações. Sem ela, o comércio não vende, a indústria não produz, os serviços não operam e a economia desacelera.
Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mostram que esse risco deixou de ser pontual e passou a ser estrutural. Entre janeiro e outubro de 2025, a cidade de São Paulo registrou um aumento de 12,8% no número de apagões em relação ao mesmo período do ano anterior, somando cerca de 328 mil ocorrências. Em alguns dias, uma única concessionária contabilizou mais de mil registros de falta de energia.
Esses números vão além de estatísticas técnicas. Eles evidenciam uma fragilidade sistêmica que impacta diretamente a produtividade, a competitividade e o bem-estar da população.
Do varejo à indústria: o impacto imediato da instabilidade elétrica
Toda a cadeia econômica depende de energia confiável. No varejo, falhas no fornecimento afetam sistemas de pagamento, refrigeração de alimentos e medicamentos, iluminação, segurança e a própria experiência do consumidor. Na indústria, interrupções significam paradas produtivas, desperdício de insumos, danos a equipamentos sensíveis e quebra de contratos.
Após episódios recentes de apagão, estimativas da Fecomercio- SP apontaram prejuízos superiores a R$ 1,5 bilhão apenas para os setores de comércio e serviços da cidade. São perdas que nem sempre aparecem nos balanços, mas se traduzem em mercadorias descartadas, vendas perdidas, atrasos logísticos e oportunidades que não retornam.
Pequenos e médios negócios são os mais vulneráveis. Diferentemente de grandes operações, muitos não dispõem de sistemas de redundância ou proteção elétrica adequada. Para muitos varejistas, algumas horas sem energia podem representar um dia inteiro de faturamento perdido ou, em cenários mais críticos, o encerramento da atividade.
Esse impacto não se limita às empresas diretamente afetadas. Menos produção e menos vendas reduzem empregos, renda local e arrecadação. Regiões com infraestrutura elétrica instável tornam-se menos atrativas para novos investimentos, enquanto aquelas com redes mais modernas, resilientes e previsíveis concentram crescimento, inovação e geração de valor.
Energia confiável como base da competitividade
A qualidade da energia elétrica está diretamente ligada à competitividade econômica. Países e cidades que investem em redes modernas, digitalizadas e preparadas para eventos extremos conseguem sustentar cadeias produtivas mais eficientes e resilientes.
No Brasil, porém, ainda convivemos com redes antigas, subdimensionadas e pouco automatizadas, que operam de forma predominantemente reativa. Eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, ampliam esse risco e expõem as limitações do modelo atual.
Enquanto os investimentos estruturais não avançam na velocidade necessária, a prevenção deixa de ser opcional. No varejo, isso passa por nobreaks, estabilizadores, manutenção elétrica preventiva, sistemas de proteção contra surtos e seguros adequados. Na indústria, por soluções de redundância, monitoramento contínuo da qualidade da energia, automação e geração própria. Nas residências, itens como aterramento correto e dispositivos de proteção deixam de ser luxo e passam a ser medidas básicas de segurança.
A fragilidade do sistema elétrico é um entrave silencioso à produtividade, à competitividade e ao bem-estar social. Ignorá-la tem um custo que já está sendo pago diariamente por empresas, trabalhadores e consumidores.
Energia elétrica confiável não é comodidade. É condição essencial para que o varejo funcione, a indústria cresça e o país avance de forma sustentável. Quando a energia falha, a economia sente. Quando ela é tratada como prioridade estratégica, o desenvolvimento acontece.
* Artigo escrito por Marcel Serafim, Diretor executivo do setor de Eletrificação da Elgin