Nesse contexto, o sistema de acesso se torna um fator limitante não apenas operacional, mas estratégico. Pontes e viadutos de médio e grande porte por vezes impõem restrições severas ao uso de andaimes convencionais, tornando indispensável o desenvolvimento e adoção de soluções suspensas, modulares e de alto desempenho. O Sistema de Acesso Suspenso QuikDeck®, desenvolvido originalmente pela BrandSafway e distribuído exclusivamente no Brasil pela Orguel, posiciona-se como uma resposta tecnicamente fundamentada a esse desafio.
O presente artigo, redigido com base em experiência prática de mais de cinco décadas em manutenção de grandes estruturas — incluindo a Ponte Rio–Niterói, objeto de doze impactos de embarcações desde a sua inauguração em 04 de março de 1974, —, propõe uma análise técnica aprofundada do sistema, confrontando-o com os requisitos normativos brasileiros e internacionais e com os dados epidemiológicos sobre acidentes no setor da construção pesada.
2. Panorama Normativo: Inspeção, Manutenção e Trabalho em Altura
2.1 Normas Estruturais Aplicáveis a OAEs
A manutenção estrutural de pontes e viadutos no Brasil é regulamentada por um arcabouço normativo que combina especificações técnicas de projeto, inspeção e reabilitação. Os principais documentos vigentes são:
ABNT NBR 6118:2014 — Projeto de estruturas de concreto: estabelece os requisitos de durabilidade, fissuras admissíveis e cobrimento nominal de armaduras, sendo referência para avaliação de patologias em estruturas existentes.
ABNT NBR 9452:2023 — Inspeção de pontes, viadutos e passarelas de concreto: define os tipos de inspeção (cadastral, rotineira, especial e extraordinária, suas periodicidades mínimas e os critérios de classificação do estado de conservação (notas de 1 a 5).
ABNT NBR 6120:2019 — Ações para o cálculo de estruturas de edificações e pontes: revisada para alinhar-se às normas ISO, com impacto no dimensionamento de plataformas de acesso sujeitas a carregamentos dinâmicos.
DNIT 010/2004-PRO — Procedimento para inspeções de rotina e especial: junta-se a NBR 9452 com protocolos operacionais para equipes de campo do sistema rodoviário federal.
A NBR 9452:2023 é particularmente relevante para este artigo, pois determina que inspeções especiais — aquelas que requerem acesso direto a elementos estruturais não visíveis da via ou das margens — devem ser realizadas com periodicidade máxima de cinco anos. A execução dessas inspeções pressupõe plataformas de trabalho que permitam acesso ao intradorso do tabuleiro, às vigas longitudinais e transversinas, às ligações tabuleiro-viga e às regiões de apoio sobre os pilares — áreas onde descontinuidades como corrosão de armaduras passivas e ativas, delaminação do concreto, fissuras em regiões críticas, comprometimento de aparelhos de apoio em neoprene fretado fixos ou deslizantes, defeitos em apoios metálicos e perda de seção resistente tendem a se manifestar.
2.2 Normas de Segurança do Trabalho Aplicáveis
No âmbito da segurança e saúde no trabalho, os sistemas de acesso suspenso em pontes são regulamentados por um conjunto integrado de normas regulamentadoras e normas técnicas:
NR-18 (Portaria MTE n.º 3.214/1978, atualizada pela Portaria MTP n.º 4.219/2022) — Segurança e Saúde no Trabalho na Indústria da Construção: estabelece requisitos para andaimes, plataformas de trabalho e sistemas de proteção coletiva, incluindo guarda-corpos, rodapés e travamentos.
NR-35 (Portaria SIT n.º 313/2012, atualizada em 2021) — Trabalho em Altura: define como trabalho em altura toda atividade executada acima de 1,80 m do nível inferior, com risco de queda. Exige Permissão de Trabalho (PT), Análise de Risco (AR), treinamento específico e, preferencialmente, proteção coletiva em detrimento de proteção individual.
ABNT NBR 6494:2024 — Segurança nos andaimes: norma recentemente revisada que trata de andaimes fachadeiros, suspensos e de mastro. Define cargas mínimas de projeto (2,0 kN/m² para andaimes de serviço), afastamentos máximos dos painéis de piso e requisitos de estabilidade.
ISO 4306-1:2016 e ISO 7546:2018 — Normas internacionais sobre terminologia e requisitos de desempenho para sistemas de içamento e acesso: utilizadas como referência para a certificação do QuikDeck® nos mercados europeu e norte-americano.
Um aspecto normativo frequentemente negligenciado em campo é a exigência da NR-35 de que o sistema de proteção coletiva seja a primeira medida a ser considerada, relegando o Equipamento de Proteção Individual (EPI) a uma camada complementar, nunca substitutiva. Andaimes convencionais mal dimensionados ou mal instalados historicamente falham nesse quesito, razão pela qual o emprego de plataformas suspensas com piso rígido e contínuo representa avanço normativo e operacional simultâneos.
3. Engenharia do Sistema QuikDeck®: Componentes, Desempenho e Certificação
3.1 Arquitetura Construtiva e Componentes Estruturais
O QuikDeck® é uma plataforma de trabalho suspensa, modular e patenteada, desenvolvida com foco em versatilidade geométrica, leveza e resistência estrutural. Sua arquitetura é baseada em três subsistemas funcionais interdependentes: o sistema de suspensão, o sistema de estruturação (treliças e nós) e o sistema de piso. A seguir, descrevem-se os principais componentes:
Nós (Nodes): peças de aço galvanizado com padrão radial de furos espaçados 45° entre si, permitindo a conexão de vigas em até oito direções distintas. São o ponto de ancoragem das correntes de suspensão e o elemento que confere ao sistema sua adaptabilidade a geometrias irregulares, incluindo intradorsos curvos, seções trapezoidais e tabuleiros com grau de esviazamento.
Vigas (Joists): perfis de aço galvanizado disponíveis em comprimentos que variam de 0,18 m (peça 1/6) a 2,5 m (peça 8’), com pesos individuais de 5,9 kg a 33,1 kg. O componente mais pesado do sistema pesa 34 kg, viabilizando o manuseio manual por um único operário sem necessidade de equipamentos de movimentação.
Suportes de Piso (Deck Supports): perfis de 2,4 m de comprimento que criam superfícies de apoio em módulos de 2,4 m × 2,4 m, compatíveis com painéis de piso padronizados.
Painéis de Piso (Decking Panels): compensado naval BBOES Grau Estrutural 1, com dimensões 1,22 m × 2,44 m × 19 mm de espessura, disponível nas versões padrão e retardante de chama (Fire Retardant Treatment — FRT). Alternativas metálicas em grede de aço galvanizado estão disponíveis para ambientes agressivos ou com restrições de acúmulo de sedimentos abrasivos.
Correntes de Suspensão: correntes de aço grau 10 (alta resistência), com fator de segurança 4:1, aceitas tanto verticalmente quanto em posições anguladas, o que confere flexibilidade no posicionamento dos pontos de ancoragem na superestrutura da ponte.
Guarda-corpos e Rodapés: componentes padronizados de aço galvanizado 16-gauge, atendendo às dimensões mínimas da NR-18 (guarda-corpo com altura mínima de 1,20 m e rodapé de 0,20 m) e às exigências da ABNT NBR 6494:2024.
Acessórios Especializados: inclui coletores de resíduos (abrasivos) e de água para trabalhos de jateamento e hidrojateamento, adaptadores de içamento para integração com guindastes e sistemas de elevação motorizados, e mordentes de ancoragem para vigas de aço e concreto.
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Grid de Suspensão (m × m) |
Capacidade de Carga (kgf/m²) |
Capacidade de Carga (kN/m²) |
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2,5 × 2,5 |
366 |
3,59 |
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2,5 × 5,0 |
244 |
2,39 |
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5,0 × 5,0 |
122 |
1,20 |
Para fins de projeto, o engenheiro responsável deve verificar a compatibilidade entre a carga de uso prevista — considerando o peso próprio da plataforma (aproximadamente 35 kgf/m²), a carga dos trabalhadores, dos equipamentos de jateamento ou pintura e dos materiais estocados sobre a plataforma — e a capacidade nominal correspondente ao grid adotado. O fator de segurança global de 4:1 (safety factor 4:1) garante que a plataforma suporte quatro vezes a carga nominal antes de atingir a tensão de ruptura dos componentes, atendendo às exigências das normas OSHA 29 CFR 1926.451 (EUA), ABNT NBR 6494:2024 (Brasil) e EN 12811-1:2003 (União Europeia).
Particularmente relevante para projetos de inspeção e manutenção de pontes é a capacidade de montagem em múltiplos níveis. Com a mesma estrutura de correntes, o QuikDeck® permite configurar até três pavimentos de trabalho suspensos simultaneamente, viabilizando o acesso simultâneo a diferentes cotas da estrutura — intradorso do tabuleiro, meia altura das vigas e região de apoio/pilar — com uma única intervenção logística.
3.3 Sistema de Ancoragem e Compatibilidade com Estruturas Existentes
Uma das limitações técnicas mais críticas em obras de manutenção de pontes é a disponibilidade de pontos de ancoragem seguros e estruturalmente adequados para sistemas de acesso suspenso. O QuikDeck® oferece compatibilidade com três categorias principais de ancoragem:
Ancoragem em vigas de aço: por meio de grampos de viga (beam clamps) de aço forjado, compatíveis com mesas de perfis laminados de altura entre 150 mm e 600 mm, com resistência nominal de tração e cisalhamento verificada por laudos de ensaio do fabricante.
Ancoragem em estrutura de concreto: por meio de chumbadores de expansão mecânica ou químicos (resina epóxi), dimensionados conforme ABNT NBR 14832 e EOTA TR-029, com verificação de tração, cisalhamento e arrancamento no concreto hospedeiro.
Ancoragem soldada: aplicável a estruturas metálicas onde o procedimento de soldagem é autorizado pelo memorial de manutenção e não compromete a integridade do elemento estrutural hospedeiro.
Em pontes mistas (concreto–aço) e em viadutos com lajes nervuradas ou com vigas do tipo caixão (box girder), o projeto de ancoragem deve ser elaborado por engenheiro habilitado, com memorial de cálculo específico contemplando as combinações de carga prescritas na NBR 6118:2014 e as cargas de serviço da plataforma. Recomenda-se a realização de ensaios de tração in situ em pelo menos 10% dos pontos de ancoragem, com carga de prova equivalente a 1,5 vezes a carga de trabalho admissível, conforme prática internacionalmente consolidada (BS EN 795 e ABNT NBR 15986).
3.4 Processo de Montagem e Desmontagem: Sequência Operacional
Uma das características mais distintivas do QuikDeck® frente aos andaimes convencionais é a possibilidade de montagem aérea — a plataforma pode ser iniciada em um ponto de ancoragem e expandida progressivamente na posição de trabalho, sem necessidade de apoio no solo durante nenhuma fase da montagem. Abaixo, descreve-se a sequência operacional típica para aplicação em pontes rodoviárias:
Fase 1 — Inspeção e projeto: vistoria prévia da estrutura, elaboração do projeto de plataforma com memorial de cálculo, identificação e pré-dimensionamento dos pontos de ancoragem, emissão de Permissão de Trabalho (PT) e Análise de Risco (AR) conforme NR-35.
Fase 2 — Instalação das ancoragens: fixação dos grampos de viga ou chumbadores na superestrutura, com verificação torquimétrica ou ensaio de carga conforme memorial de projeto.
Fase 3 — Montagem do módulo inicial: conexão das correntes de grau 10 aos pontos de ancoragem e aos nós do primeiro módulo, instalação das treliças e suportes de piso, colocação dos painéis de deck.
Fase 4 — Expansão aérea progressiva: a partir do módulo inicial, a plataforma é expandida lateralmente utilizando o balanço estrutural de até 5 metros, viabilizando o acesso dos montadores ao módulo seguinte sem necessidade de reposicionamento de escadas externas ou equipamentos de elevação.
Fase 5 — Instalação dos sistemas de proteção: colocação de guarda-corpos, rodapés, redes de proteção e, quando aplicável, lonas de contenção de resíduos de jateamento e telas de proteção contra queda de objetos sobre o tráfego.
Fase 6 — Inspeção pré-uso: verificação sistemática conforme checklist do fabricante (Guia de Montagem QuikDeck®, revisão D), cobrindo integridade dos nós, tensão das correntes, nivelamento do piso e condição dos dispositivos de retenção de corrente (chain retainer pins).
Fase 7 — "Leapfrogging" (relocalização progressiva): à medida que os serviços avançam ao longo da ponte, módulos desmontados em posições concluídas são relocalizados para as posições seguintes, reduzindo o custo de locação e o tempo de paralisação.
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Critério de Avaliação |
QuikDeck® (Orguel/BrandSafway) |
Andaime Tubular Convencional |
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Base de apoio no solo |
Não requerida — montagem totalmente aérea |
Necessária — restringe aplicação sobre lâminas d'água e vias em operação |
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Capacidade de carga útil |
122 a 366 kgf/m² conforme grid (fator 4:1) |
Tipicamente 75 a 200 kgf/m², sem fator uniforme |
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Produtividade de montagem |
20 m²/homem/dia |
5 a 7 m²/homem/dia |
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Adaptação geométrica |
Qualquer geometria — nós com 8 direções de conexão a 45° |
Qualquer geometria |
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Impacto no tráfego |
Mínimo ou nulo — operação sem interdição em maioria dos casos |
Interdição de faixas e áreas subjacentes durante montagem e uso |
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Nível de qualificação |
Montagem sem ferramentas especiais; treinamento específico |
Requer montadores especializados; projeto complexo conforme NBR 6494 |
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Multi-nível |
Até 3 níveis com a mesma estrutura de correntes |
Requer estrutura independente para cada nível |
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Ancoragens necessárias |
60% menos ancoragens vs. andaimes convencionais (grid 5 m × 5 m) |
Grid mínimo de 1,8 m × 1,8 m — alta densidade de pontos de fixação |
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Compatibilidade com jateamento abrasivo |
Sim — acessório coletor de grit disponível; aço galvanizado resistente |
Limitada — componentes metálicos corroem; acúmulo de abrasivo no piso |
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Conformidade normativa NR-35/NBR 6494 |
Integral — guarda-corpos, rodapés e sistema de contenção inclusos |
Conformidade possível, mas frequentemente comprometida em campo |
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Histórico de acidentes |
Baixo — piso contínuo elimina aberturas e superfícies irregulares |
Alto — ~25% das quedas fatais na construção civil ocorrem em andaimes |
A produtividade de montagem documentada em campo é, em média, 20 m² por homem/dia, sendo que até 500 m² de plataforma podem ser transportados em uma carreta de 27 t — parâmetros de referência para o dimensionamento das equipes e do cronograma de intervenções. Para comparação, andaimes tubulares convencionais tipicamente apresentam produtividade de montagem de 5 a 7 m²/homem/dia em condições similares de trabalho em altura.
4. Análise Comparativa: QuikDeck® versus Andaimes Convencionais em Obras de Pontes
A escolha do sistema de acesso em obras de manutenção de OAEs deve ser precedida de análise técnico-econômica que considere não apenas o custo direto de locação, mas o conjunto de fatores que influenciam a segurança, a produtividade e o impacto sobre a operação da via. A tabela a seguir consolida os principais critérios de comparação:
Tabela 2 — Comparativo técnico entre QuikDeck® e andaimes tubulares convencionais em obras de pontes.
Fontes: Orguel (2025), BrandSafway (2024), OSHA (2023), compilação do autor.
É importante ressaltar que a maior densidade de pontos de ancoragem exigida pelos andaimes convencionais — com grid máximo de 1,8 m × 1,8 m contra os 5,0 m × 5,0 m permitidos pelo QuikDeck® — representa não apenas maior custo e tempo de instalação, mas risco adicional de dano à estrutura existente. Em pontes históricas ou em estruturas com concreto já fragilizado por carbonatação ou corrosão de armaduras, a multiplicação de furos de ancoragem constitui risco estrutural mensurável, que pode ser drasticamente reduzido com a adoção de sistemas de menor densidade de fixação.
5. Segurança do Trabalho em Altura: Dados Epidemiológicos e Impacto do QuikDeck®
5.1 Cenário Epidemiológico Nacional e Internacional
O setor da construção civil é, historicamente, o mais letal da economia brasileira quando se considera a taxa de mortalidade por queda de altura. Entre 2012 e 2024, o Brasil registrou 8,8 milhões de acidentes de trabalho e 32 mil mortes, com custo previdenciário estimado em mais de R$ 170 bilhões, segundo dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab/MPT-OIT, 2025). A construção civil e a construção pesada (infraestrutura) respondem por aproximadamente 18% das mortes, com queda de altura representando a principal causa direta.
No plano internacional, dados da Occupational Safety and Health Administration (OSHA) americana indicam que quedas de andaimes representam cerca de 25% de todas as mortes por queda na construção civil, sendo que aproximadamente 60% desses acidentes ocorrem durante a montagem, desmontagem ou realocação dos equipamentos — e não durante o uso normal da plataforma. Esse dado reforça a importância da escolha de sistemas que minimizem o número e a complexidade das operações de montagem, como é o caso do QuikDeck®.
5.2 Mecanismos de Redução de Risco Intrínsecos ao Sistema
O QuikDeck® incorpora mecanismos de segurança que atuam em diferentes níveis da hierarquia de controles de risco preconizada pela NR-35 e pela norma internacional ANSI/ASSE Z359.2:
Eliminação de superfícies irregulares: o piso contínuo e rígido, composto por painéis de compensado naval ou gradil metálico sem frestas ou ressaltos, elimina os principais mecanismos de tropeço e queda que caracterizam os andaimes de tubo e encaixe com pranchas de madeira irregularmente posicionadas.
Redução do tempo de exposição ao risco: a maior produtividade de montagem (média 20 m²/homem/dia versus 5–7 m² em andaimes convencionais) reduz o tempo total de permanência dos montadores em condições de risco elevado, diminuindo a probabilidade estatística de ocorrência de eventos adversos.
Guarda-corpos e rodapés integrados ao sistema: projetados como componentes estruturais do QuikDeck® e não como acessórios opcionais, os guarda-corpos de 1,20 m e os rodapés de 0,20 m atendem à NR-18 e à NBR 6494:2024 e são instalados antes do início das atividades produtivas na plataforma.
Fator de segurança 4:1 em todos os componentes: o sistema é certificado para suportar quatro vezes a carga de trabalho admissível em qualquer componente individual, eliminando cenários de colapso parcial por sobrecarga localizada.
Correntes de grau 10 com pino de retenção (chain retainer pin): o mecanismo de trava impede o desacoplamento acidental da corrente do nó, mesmo em situações de inversão de carga ou vibração estrutural — cenário frequente em pontes sob tráfego.
Montagem sem ferramentas especiais: a simplicidade de montagem, com todos os componentes encaixáveis manualmente, reduz o risco de erros de instalação decorrentes de torque inadequado, conexões invertidas ou omissão de fixadores, que respondem por parcela significativa dos colapsos de andaimes convencionais.
Plano de resposta a emergências: procedimento documentado para resgate em altura de trabalhador incapacitado na plataforma, com designação de equipe treinada, equipamentos de resgate disponíveis in situ e tempo máximo de resgate compatível com as recomendações médicas para síndrome de suspensão.
Registro e análise de quase acidentes (near misses): implementação de sistema de reporte de ocorrências com potencial de acidente, mesmo sem vítimas, para retroalimentação contínua do PGR e do treinamento das equipes.
Terceira Ponte (Vitória–Vila Velha/ES): com extensão de 3.325 m e tráfego médio diário superior a 70.000 veículos, a ponte é uma das mais movimentadas do Brasil. O emprego do QuikDeck® permitiu a execução de serviços de pintura anticorrosiva e recuperação de concreto sem interrupção do tráfego, com plataforma suspensa ao intradorso das vigas de concreto protendido.
Rodoanel Norte (SP) — Viadutos: aplicação em múltiplos viadutos da porção norte do Rodoanel Mário Covas, onde a impossibilidade de acesso ao solo tornou o QuikDeck® a única solução tecnicamente viável.
Viaduto Santa Ifigênia (São Paulo/SP): estrutura tombada no centro histórico de São Paulo. A plataforma suspensa foi empregada para viabilizar inspeção especial e recuperação de elementos metálicos, sem impacto sobre o intenso fluxo de pedestres na área.
Plataformas offshore Petrobras: o sistema também demonstrou desempenho superior em ambientes de alta agressividade química (atmosfera salina, H2S) em plataformas de petróleo, reforçando sua pertinência em obras de pontes costeiras e sobre estuários.
Forth Rail Bridge (Escócia, Reino Unido): patrimônio mundial da UNESCO, com extensão de 2.529 m. A Brand Access Solutions (grupo BrandSafway) utilizou o QuikDeck® como elemento central de seu programa de manutenção, com 2.400 m² de plataforma implantados no Terminal 2 do Manchester Airport durante fase de preparação logística da mesma equipe. O sistema está sob consideração para futuras intervenções na Forth Rail Bridge, substituindo andaimes de torres fixas e acesso por cordas.
A experiência internacional demonstra que o QuikDeck® é adotado prioritariamente em contextos de alta exigência técnica, onde a combinação de segurança, adaptabilidade geométrica e mínima perturbação à operação da estrutura é determinante. Esse perfil é exatamente o que caracteriza as obras de manutenção de pontes brasileiras com maior demanda reprimida de intervenção.
7. Perspectiva Técnica: A Experiência na Ponte Rio–Niterói
A Ponte Presidente Costa e Silva — popularmente conhecida como Ponte Rio–Niterói — é, com seus 14.000 metros de extensão em seus extremos mais afastados, a maior ponte em extensão do Hemisfério Sul, e a 23ª ponte do Planeta Terra, guardando a primazia de ter o maior vão contínuo do mundo em viga reta contínua com placa superior ortotrópica, composto pelos 300,00 metros do vão central em aço inglês. Construída entre 1968 e 1974, ela opera sob condições de exposição extremamente agressivas: atmosfera marinha com alta concentração de cloretos e sulfatos, variações de temperatura e umidade que promovem ciclos de expansão e contração nos elementos de concreto e metálicos, e tráfego médio diário superior a 180.000 veículos — condições que aceleram os mecanismos de deterioração e tornam os programas de manutenção preventiva particularmente desafiadores, destacando-se que o sistema de inspeção e manutenção de suas estruturas é referência mundial.
Em 50 anos de operação, a ponte sofreu 12 impactos documentados de embarcações, com danos a pilares, vigas e estruturas auxiliares de proteção, que demandaram intervenções emergenciais em condições de altíssima complexidade operacional. Em cada uma dessas intervenções, a questão do acesso aos elementos danificados — situados entre 20 e 70 metros acima do espelho d'água, sem possibilidade de apoio — impôs os limites dos sistemas de acesso disponíveis em cada época.
A adoção progressiva de sistemas de acesso às áreas com descontinuidades evidencia, para qualquer tipo de estrutura, ganhos mensuráveis em três dimensões: (1) redução do tempo de mobilização e desmobilização do sistema de acesso, com impacto direto no custo total da intervenção; (2) melhoria das condições ergonômicas e de segurança da equipe de engenheiros e operários, que passaram a trabalhar em piso contínuo e estável ao invés de pranchas soltas sobre estruturas tubulares; e (3) possibilidade de execução simultânea de inspeção, mapeamento de patologias e execução dos serviços de recuperação, sem a necessidade de remontar o sistema de acesso entre as fases.
Essa experiência consolidou a convicção de que a tecnologia de acesso não é um detalhe logístico a ser resolvido no campo — é uma variável de projeto que deve ser considerada desde a concepção do programa de manutenção, com impacto determinante na qualidade técnica, na segurança e na economicidade das intervenções. O QuikDeck® representa, nesse contexto, não apenas um equipamento, mas uma mudança de paradigma na forma como a engenharia brasileira deve encarar a manutenção de seu parque de obras de arte especiais.
8. Recomendações para Projeto e Uso em Obras de OAEs
Com base na análise técnica desenvolvida nos capítulos anteriores e na experiência prática acumulada, apresentam-se as seguintes recomendações para engenheiros, gestores de obras e profissionais de segurança do trabalho que considerem a adoção do QuikDeck® em intervenções em pontes e viadutos:
Elaborar projeto específico de plataforma: o sistema QuikDeck® não deve ser implantado sem projeto de engenharia individualizado, contemplando o memorial de cálculo das ancoragens, o dimensionamento do grid de suspensão para a carga de uso prevista e a verificação da compatibilidade estrutural dos pontos de fixação com a estrutura hospedeira.
Integrar o projeto de acesso ao programa de manutenção da OAE: o sistema de acesso deve ser dimensionado para viabilizar não apenas o serviço imediato, mas os ciclos futuros de inspeção e manutenção previstos na NBR 9452:2019, otimizando o custo total de propriedade do sistema ao longo da vida útil da estrutura.
Exigir treinamento específico da equipe de montagem: embora o QuikDeck® não exija ferramentas especiais, a equipe de montagem deve receber treinamento certificado pelo fabricante (disponível via Orguel) e pelo responsável técnico da obra, cobrindo a sequência de montagem, os critérios de inspeção pré-uso e os procedimentos de emergência.
Verificar a compatibilidade do sistema com os serviços a serem executados: para jateamento abrasivo, verificar a disponibilidade e a instalação dos acessórios coletores de resíduos; para pintura com solventes, verificar a ventilação da plataforma e a compatibilidade dos materiais do piso com os produtos químicos utilizados;
Adotar o QuikDeck® como plataforma-base para andaimes complementares: em regiões de geometria irregular ou de difícil acesso mesmo para o sistema modular, o QuikDeck® pode servir de plataforma de apoio para andaimes tubulares localizados, combinando as vantagens de cada sistema e atendendo à NR-18 com proteção coletiva em toda a extensão da obra.
Documentar e compartilhar as lições aprendidas: a produção de relatórios técnicos de obra, com registros fotográficos das condições de uso, dos eventuais desvios e das soluções adotadas, contribui para a evolução das práticas de manutenção de OAE’s no Brasil e para a melhoria contínua das normas técnicas aplicáveis.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6120: Ações para o cálculo de estruturas de edificações e pontes. Rio de Janeiro: ABNT, 2019.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6494: Segurança nos andaimes. Rio de Janeiro: ABNT, 2024.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9452: Inspeção de pontes, viadutos e passarelas de concreto — Procedimento. Rio de Janeiro: ABNT, 2019.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14832: Ancoragens em estruturas de concreto — Requisitos de desempenho. Rio de Janeiro: ABNT.
BRANDSAFWAY. QuikDeck® Suspended Access System — Product Selection Guide (ORN1810 Rev. D). Atlanta: BrandSafway, 2018.
BRANDSAFWAY. QuikDeck® Suspended Access System — Assembly Guide (ORN1803). Atlanta: BrandSafway, 2023.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora n.º 18 — Segurança e Saúde no Trabalho na Indústria da Construção. Portaria MTP n.º 4.219/2022. Brasília, 2022.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora n.º 35 — Trabalho em Altura. Brasília, 2021.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora n.º 01 — Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Portaria MTP n.º 4.219/2022. Brasília, 2022.
BRAND ACCESS SOLUTIONS. QuikDeck® and Forth Rail Bridge: Innovation in Heritage Infrastructure Maintenance. UK, 2025. Disponível em: brand-accesssolutions.com.
DEPARTAMENTO NACIONAL DE INFRAESTRUTURA DE TRANSPORTES. Inventário Nacional de Obras de Arte Especiais. Brasília: DNIT, 2023.
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO; ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho — SmartLab. Brasília, 2025. Disponível em: smartlabbr.org.
NHI – NATIONAL HIGHWAY INSTITUTE, FHW – FEDERAL HIGHWAY ADMINISTRATION. BRIDGES INSPECTOR’S REFERENCE MANUAL, 2020
OCCUPATIONAL SAFETY AND HEALTH ADMINISTRATION (OSHA). Scaffolding Safety: Statistics and Standards. Washington: U.S. Department of Labor, 2023.
ORGUEL. Sistema de Acesso Suspenso QuikDeck® — Ficha Técnica e Aplicações. Belo Horizonte: Orguel, 2025. Disponível em: orguel.com.br.
SIQUEIRA, C. H. Queda de ponte reacende debate sobre manutenção de estruturas no país. Agência Logística de Notícias, abr. 2026.
SIQUEIRA, C.H. Tese de doutorado pela Universidade Federal Fluminense – UFF – 2009
SIQUEIRA, C.H. – Notas de aulas do Curso de Mestrado da UFRJ, Programa de Projeto de Estruturas, Escola Politécnica, 2024 e 2025
* Artigo Técnico escrito por Carlos Henrique Siqueira
Engenheiro Civil | Doutor em Patologia das Estruturas | Especialista em Inspeção de OAEs de concreto armado e protendido e em estruturas metálicas | Consultor Técnico da Ponte Rio–Niterói | Membro de vários Comitês Técnicos da ABNT, incluindo a NBR 9452/2023 - Diretor da RIOCON Consultoria e Engenharia.