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O SaaS não morreu: Só deixou de ser a tela que você abre

Há uma narrativa ganhando espaço no mercado de tecnologia segundo a qual a Inteligência Artificial (IA) decretou a morte do SaaS (Software as a Service). Se agentes conseguem consultar dados, executar tarefas, escrever código e interagir diretamente com sistemas corporativos, por que uma empresa continuaria dependendo de dezenas de aplicações? A pergunta é legítima. A conclusão, porém, parece precipitada. O que estamos assistindo não é à morte do SaaS, mas a uma mudança muito mais profunda na forma como nos relacionamos com ele. O software continua lá. Na verdade, o que começa a desaparecer é a obrigação de abrir o software para utilizá-lo.

Durante décadas, construímos aplicações pensando em pessoas navegando por menus, preenchendo campos, procurando informações e abrindo dashboards. A IA Agêntica começa a inverter essa lógica. Pense em um CRM: em vez de entrar no sistema para descobrir quem é determinado cliente, consultar suas últimas interações, verificar quanto ele compra e procurar oportunidades de cross-sell, é possível simplesmente perguntar. Um agente percorre registros e histórico e devolve a resposta, ou executa a ação necessária. O CRM não desaparece: ele permanece como base confiável de dados e processos. Quem muda é o interlocutor. Em vez de o ser humano consultar diretamente o sistema, cada vez mais serão os agentes que farão isso por ele.

É significativo que a própria Salesforce esteja caminhando nessa direção. No evento Dreamforce 2026, a companhia apresentou o AIforce como uma camada capaz de levar dados, workflows, lógica de negócio, permissões e governança da plataforma para diferentes interfaces. O usuário não precisa necessariamente estar dentro da tela tradicional do CRM para aproveitar aquilo que existe nele, visto que a interação pode ocorrer por meio de agentes e ambientes como Slack e Claude. A transformação desloca o valor da interface para aquilo que existe por trás dela – dados, contexto, regras, segurança e capacidade de execução.

É aí que a tese da “morte do SaaS” começa a revelar sua simplificação. Um estudo estima que até US$ 234 bilhões em gastos com aplicações corporativas poderão ser expostos ao chamado agentic arbitrage (arbitragem agêntica, em tradução livre) até 2030, cerca de 20% dos gastos com aplicações SaaS. Isso ocorre porque agentes podem operar através de diferentes sistemas, reduzindo a necessidade de usuários interagirem diretamente com cada aplicação. Há, assim, uma ruptura real, na qual interfaces que servem essencialmente para organizar cliques e tarefas repetitivas perdem relevância, ao passo que o tradicional modelo de cobrança por usuário tende a sofrer pressão. Mas os próprios sistemas continuam necessários como fontes de registros, regras e dados sobre os quais os agentes trabalham.

A América Latina ajuda a colocar esse suposto “SaaSpocalypse” em perspectiva. Uma pesquisa aponta que o mercado regional de SaaS passaria dos US$ 22 bilhões registrados em 2023 para mais do que o dobro (US$ 46 bilhões) em 2027. No ano passado, a região cresceu quase 23%, acima da média global de 17%, enquanto o Brasil sozinho poderia alcançar US$ 22 bilhões no próximo ano. É difícil conciliar esses números com a ideia de desaparecimento iminente. Eles parecem apontar para algo diferente, mais precisamente para um mercado que ainda cresce, mas cujo produto, experiência e monetização terão de ser reinventados.

Entretanto, existe uma condição fundamental para esse novo SaaS funcionar: dados. Não adianta colocar um agente sofisticado sobre informações fragmentadas, duplicadas, desatualizadas ou sem governança e esperar inteligência na outra ponta. A IA não corrige magicamente a ausência de contexto empresarial. Ao contrário: pode até amplificá-la. Por isso, antes de correr atrás do hype as organizações precisam preparar o alicerce, estruturar seus dados, integrar sistemas e desenvolver maturidade suficiente para transformar IA em retorno real. A escolha da tecnologia vem depois da pergunta essencial: qual problema queremos resolver e quais dados confiáveis permitirão que um agente faça isso? A transformação não é um projeto isolado de IA, mas uma jornada que combina tecnologia, processos, pessoas e casos de uso capazes de demonstrar ROI.

O próximo passo será tornar essa experiência progressivamente invisível e conversacional. O profissional não precisará saber em qual dos dez sistemas da companhia determinada informação está armazenada. Ele poderá simplesmente expressar uma intenção, seja preparar uma proposta, identificar uma oportunidade comercial, resolver um chamado ou atualizar uma previsão, e agentes decidirão quais fontes consultar e quais ações executar. O CRM, o ERP, o data lake e outras aplicações continuam funcionando nos bastidores, porém a complexidade tecnológica deixa de ser problema do usuário. Ao invés de navegar pelos sistemas para realizar o trabalho, passamos a pedir pelo resultado e deixamos que software e agentes encontrem juntos o caminho para entregá-lo.

Diante do cenário atual, talvez “invisível” seja uma das melhores palavras para definir o futuro do SaaS. Durante anos, medimos a importância do software pelo tempo que as pessoas passavam dentro dele. Na era dos agentes de IA, um bom software pode ser justamente aquele que não obrigue ninguém a entrar nele. Ele estará nos bastidores protegendo dados, aplicando regras, mantendo registros e permitindo que agentes trabalhem sobre fontes confiáveis. A interface perde protagonismo; já dados, contexto, governança e execução ganham valor. O clique dá lugar à conversa e a licença por usuário passa a conviver com modelos baseados em consumo, trabalho ou resultado.

Falar em “morte do SaaS” hoje rende uma boa manchete para alguns. Mas possivelmente estejamos menos diante de um funeral do que de um renascimento, no qual o software deixa de ser o lugar onde trabalhamos para se tornar a infraestrutura inteligente que trabalha conosco. E, cada vez mais, por nós.

*Leandro Pasqualin é Business Director na GFT Technologies no Brasil