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BIM: o risco está nos dados que ninguém vê

por Marcus Granadeiro e Rafael Ramalho*

 

Boa parte do controle de qualidade em BIM (Building Information Modeling, ou Modelagem da Informação da Construção) ainda verifica aquilo que é visualmente evidente, como interferências entre elementos. Quando duas coisas ocupam o mesmo espaço e não deveriam, o problema aparece na tela. Com os dados, porém, a situação é diferente.

 

Duas portas podem parecer idênticas no modelo, mas uma pode ter a resistência ao fogo preenchida e a outra não. Essa diferença nem sempre é facilmente identificada.

Essa é uma das fragilidades do BIM atual. Os requisitos do contratante estabelecem quais informações precisam ser entregues, mas a existência de uma exigência não significa que ela seja facilmente verificável. Muitas conferências ainda dependem da leitura de documentos e do trabalho manual.

 

O custo aparece mais tarde. Se um dado estiver ausente ou incorreto, o proprietário pode pagar novamente para obter uma informação que deveria estar disponível desde o projeto. A construtora também pode sofrer as consequências, como comprar materiais a partir de especificações erradas e descobrir o problema apenas no canteiro.

 

Uma analogia do século XIX ajuda a entender esse desafio. Naquele período, o transporte marítimo britânico convivia com os chamados “navios-caixão”, embarcações antigas ou mal conservadas carregadas além de sua capacidade. Vistos do cais, porém, um navio sobrecarregado e outro dentro dos limites podiam parecer iguais.

 

O deputado britânico Samuel Plimsoll passou anos defendendo uma forma objetiva de indicar o limite de carga. O Merchant Shipping Act de 1876 tornou obrigatória uma marca de calado no casco, embora inicialmente os próprios armadores pudessem definir sua posição. Somente em 1890 essa atribuição passou para entidades independentes.

 

A chamada linha de Plimsoll tornou visível uma condição que antes podia ser descoberta apenas quando o problema já havia ocorrido. A exigência deixou de existir somente no texto e passou a ser objetivamente verificável.

 

Essa é uma boa maneira de pensar o próximo estágio do BIM.

 

Os requisitos de informação de um contratante cumprem, em parte, papel semelhante: dizem o que deve ser entregue, mas ainda podem depender de interpretação. A Information Delivery Specification (IDS), desenvolvida pela buildingSMART, organização internacional dedicada à transformação digital da indústria de arquitetura, engenharia, construção e operação por meio de padrões abertos, avança justamente nessa direção.

 

A IDS permite estruturar requisitos de forma que possam ser interpretados por software. Podemos pensar nela como uma espécie de “linha de Plimsoll do dado”: a exigência continua a mesma, mas passa a ser escrita de maneira que possa ser conferida de forma objetiva.

 

Isso muda a lógica do controle de qualidade. Parte da conferência deixa de depender exclusivamente da leitura de documentos e pode ser transformada em regras executadas sempre que o modelo é atualizado. O desafio é converter documentos extensos em requisitos verificáveis. E é justamente nesse ponto que a inteligência artificial (IA) pode assumir um papel importante.

 

A IA recebe o documento do cliente e arquivos de contexto, como o esquema IFC4 (Industry Foundation Classes 4), padrão internacional aberto do OpenBIM, e a documentação da IDS. As exigências são separadas e relacionadas ao vocabulário do IFC4, mantendo a referência ao texto original. A revisão humana continua fundamental. Uma propriedade pode estar tecnicamente correta para o software e, ainda assim, não corresponder ao que o cliente solicitou. Por isso, a automação deve funcionar como apoio à engenharia, e não como substituição da responsabilidade técnica.

 

Depois de validadas, as regras podem ser reutilizadas e executadas automaticamente a cada nova versão do modelo. No exemplo apresentado por Fugas, uma atividade que consumia cerca de 20 horas a cada quinzena passou para aproximadamente duas.

 

O ganho de tempo, porém, é apenas parte da mudança. Uma regra criada uma vez continua sendo utilizada nas etapas seguintes. O profissional deixa de gastar grande parte de seu tempo conferindo modelos e passa a estruturar a conferência e analisar seus resultados.

 

Para quem contrata, a lição é direta: exigir uma entrega em BIM sem estabelecer como os dados serão verificados pode significar ter uma obrigação formal cuja falha só será descoberta quando o ativo já estiver sendo entregue. A pergunta deveria ser simples: como podemos conferir esse requisito sem depender exclusivamente de alguém abrir um documento e fazer a verificação manualmente?

 

Essa discussão ganha importância na operação e manutenção de ativos históricos. Museus como o Louvre e o British Museum enfrentam problemas de infiltrações, goteiras e instalações antigas que nem sempre estão devidamente mapeadas.

 

Casos como o incêndio da Catedral de Notre-Dame, em Paris, mostram o valor de ter esse registro. Uma Nuvem de Pontos produzida antes do incêndio ajudou a orientar a reconstrução. No Brasil, a mesma tecnologia foi usada após o incêndio do Museu Nacional para registrar o que restou do edifício.

 

A combinação entre Nuvem de Pontos e BIM permite manter uma representação digital atualizada da estrutura e das instalações. Com isso, manutenção e gestão passam a contar com dados mais precisos, reduzindo a dependência de documentos antigos, fotografias ou suposições.

 

É nesse sentido que a discussão sobre qualidade do dado ultrapassa a fase de projeto. O valor do BIM não está apenas em representar um edifício, mas em construir uma base de informação confiável, verificável e capaz de acompanhar o ativo durante sua vida útil.

 

Assim como um mapeamento genético orienta cuidados médicos, um gêmeo digital orienta a saúde estrutural de monumentos. Adotar Nuvem de Pontos e BIM significa planejar, e não apenas consertar. Significa proteger, e não apenas reagir. A tecnologia, neste caso, não substitui a história, ela a salva.

 

*Marcus Granadeiro e Rafael Ramalho são, respectivamente, sócio-diretor e líder do Núcleo BIM do Construtivo, empresa de tecnologia especializada na digitalização da engenharia e da construção.