Arquitetura pós COVID-19: a profissão, os escritórios e os autônomos
À medida que alguns países estão pouco a pouco retomando as suas atividades, abrandando as medidas de contenção e isolamento que nos foram impostas ao longo dos últimos meses, arquitetos do mundo todo estão procurando entender melhor como será a sua vida na chamada ‘nova normalidade’. Como uma ruptura drástica e repentina em nossos modos de vida, o surto de coronavírus nos apresentou uma nova forma de encarar o mundo, redefinindo o próprio conceito de “normalidade”, provocando uma mudança na maneira como nos relacionamos com o mundo a nossa volta. Impulsionados por uma série de questões latentes, estamos lidando com um fenômeno ainda muito recente, antecipando um futuro relativamente desconhecido.

Durante um bate papo informal, dois dos nossos editores tiveram a ideia de escrever um artigo colaborativo onde procuram investigar as principais tendências do atual momento, debatendo questões relacionas às incertezas do futuro e oferecendo a sua visão sobre como a atual situação poderá afetar a disciplina da arquitetura daqui para frente. Abordando uma possível mudança de paradigma, no cenário profissional e principalmente no ensino da arquitetura, este artigo escrito à quatro mãos por Christele Harrouk e Eric Baldwin visa lançar uma luz sobre este nebuloso momento que estamos atravessando.

O campo profissional
Embora seja impossível prever o futuro, podemos criar algumas analogias lógicas com base na atual situação e em como os arquitetos reagiram a este momento de crise. Rapidamente, profissionais ao redor do mundo se prontificaram a ajudar disponibilizando seus conhecimentos e engajando-se na luta em combate à disseminação do surto de coronavírus, criando soluções inovadoras que ajudaram a salvar milhares de vidas e que poderão nos ajudar muito nos próximos anos. Enquanto alguns arquitetos se dedicaram a projetar estruturas e instalações temporárias, outros se disponibilizaram a repensar estruturas e infra-estruturas urbanas. Na reflexão que será apresentada à seguir, nossos editores procuram identificar de que forma a nossa profissão poderá – e deverá – evoluir, discutindo sobretudo novos projetos e o papel das cidades inteligentes para o futuro da arquitetura.



Abordagens interdisciplinares: Se tem algo que esta pandemia nos ensinou é que a arquitetura por si só não é capaz de salvar o mundo. À medida que formos retomando as nossas atividades ao longo dos próximos meses, ficará claro que a maneira como nos relacionarmos com o espaço construído não será mais a mesma. Novas abordagens interdisciplinares, que estão surgindo aos montes como resposta imediata à atual crise sanitária mundial, podem oferecer uma visão mais holística sobre a nossa própria disciplina, proporcionando abordagens alternativas para lidarmos com as questões globais mais urgentes. O trabalho colaborativo desenvolvido em parceira entre arquitetos e outros profissionais deverá assumir proporções jamais vistas, impulsionado pelo trabalho remoto e as novas tecnologias, aproximando profissionais das mais diversas disciplinas, integrando à prática da arquitetura conceitos de saúde pública, mobilidade e transporte, psicologia ambiental, biofilia e até mesmo agricultura urbana, para citar alguns.

Projetos futuros: Projetos emergenciais e estruturas temporárias são tópicos que devem assumir uma posição central em nossa disciplina ao longo dos próximos anos. Fundamentalmente utilizadas em tempos de guerra, em situações de emergencia causadas por desastres naturais e mais recentemente, para acolher um crescente número de refugiados ao redor do mundo, estruturas temporárias emergenciais passarão a desempenhar um papel cada vez mais decisivo no combate à doenças e epidemias – e que ninguém esqueça que guerras, desastres naturais e imigração em massa continuarão existindo. A sustentabilidade consolidará sua prevalência como elemento indispensável em todo e qualquer projeto de arquitetura, e a tendência é que a busca por auto-suficiência seja ainda mais manifesta. Por outro lado, a construção maciça de estruturas temporárias e emergenciais, na maioria dos casos em áreas subtilizadas, está transformando decisivamente os espaços ociosos de nossas cidades. O emprego do reuso adaptativo está se tornando vital para a arquitetura neste atual momento de crise, permitindo agir rápida e efetivamente. Considerado um dos principais aliados da sustentabilidade na arquitetura, o reuso adaptativo deverá finalmente ganhar a importância que merece, colaborando e muito com a estabilidade da industria da construção civil que inevitavelmente, sofrerá sérias consequências em um curto espaço de tempo.

Repensando o conceito de casa: À medida que o tempo vai passando e as medidas de isolamento continuam perdurando, os espaços íntimos estão ganhando cada dia mais importância em nossas vidas. Na verdade, é bem provável que a maioria dos nossos espaços domésticos já não sejam mais os mesmos. Da noite para o dia deixamos de sair de casa todos os dias, e então, algo mudou. A qualidade e o conforto do espaço doméstico passaram a ser uma prioridade para todos nós, assim como mudaram nossas principais exigências e necessidades. Em nosso confinamento, passamos a repensar de que forma nossas casas, apartamentos e edifícios poderiam ser mais agradáveis: áreas verdes e jardins, coberturas acessíveis, iluminação e ventilação natural eficientes, varandas e terraços generosos, espaços internos aconchegantes e acolhedores, etc.

Novos parâmetros: Com um foco renovado em abordagens orientadas ao bem-estar e a saúde dos usuários, novos parâmetros deverão ser estabelecidos. A maneira como projetamos nossos edifícios deverá mudar, assim como os materiais mais frequentemente utilizados. No curto prazo, soluções modulares e estruturas pré-fabricadas serão aquelas mais comuns, espaços flexíveis e estruturas leves continuarão a ganhar espaço na indústria da arquitetura e construção. A longo prazo, podemos dizer que as medidas de distanciamento social jamais serão esquecidas, passando a fazer parte – consciente ou inconscientemente – do processo de concepção dos projetos de arquitetura daqui pra frente. Como resposta, novos materiais estão sendo desenvolvidos, como aqueles que evitam ou impedem a disseminação do vírus.



A cidade adaptável

As grandes cidades, como epicentros da transmissão de doenças, têm sido as estruturas urbanas mais afetadas pelo coronavírus. Repensar os nossos sistemas e a infra-estrutura das nossas cidades em si é mais do que necessário, adaptando-às as novas realidades, incorporando as últimas inovações e explorando as novidades ao longo do caminho.

Espaços públicos: Embora os espaços públicos tenham sido sempre áreas de socialização e convivência, a pandemia provocou um esvaziamento generalizado de nossos parque e praças. Por outro lado, aprendemos que até mesmo sob restritas medidas de distanciamento social é possível desenvolver soluções criativas que permitam o uso compartilhado do espaço de forma segura e saudável. Como as regras e normas de uso do espaço coletivo continuam evoluindo a cada dia, sem sabermos o que pode acontecer amanhã, os espaços públicos mais flexíveis são aqueles com maior potencial, possibilitando diferentes formas de engajamento físico e social. Novas propostas já estão começando a aparecer, considerando as atuais limitações e propondo soluções engenhosas para permitir que as pessoas continuem usufruindo dos benefícios de estar ao ar livre. Elementos naturais estão sendo utilizados como zonas de amortecimento, definindo espaços seguros e afastamentos mínimos. Um exemplo disso é a proposta de parque urbano desenvolvida pelo Studio Precht, chamado “Parc de la Distance”. Este parque urbano – inspirado nos jardins franceses e jardins zen japoneses – concebido para o centro da cidade de Viena, na Áustria, incentiva o distanciamento social e o isolamento contemplativo como solução para driblar as novas regras de uso do espaço em tempos de pandemia.

Densidade: Há algum tempo, urbanistas e autoridades políticas vêm defendendo a densificação como uma solução sustentável para dar vazão ao crescente aumento populacional no planeta. Esta abordagem se opõe à expansão urbana, a qual demanda a construção massiva de novas redes e infraestruturas além da devastação de enormes áreas rurais ou não-urbanizadas. Entretanto, como as doenças contagiosas encontram em cidades densamente povoadas o melhor ambiente para a sua propagação, a estratégia de densificação não está imune à críticas. Richard Sennett, em artigo publicado pela Domus, afirma que “embora a alta concentração de pessoas seja também uma boa solução em termos de sustentabilidade ambiental, minimizando o impacto das infra-estruturas urbanas sobre a paisagem natural [...] para que possamos prevenir ou inibir futuras pandemias, precisamos encontrar novas estratégias de densificação, permitindo manter uma certa distância de segurança mas sem isolar completamente as pessoas.” E como conseguimos isso? Que tipo de cidade seria essa?




Transporte/Mobilidade: Um dos maiores desafios enfrentados pelas autoridades locais durante esta pandemia tem sido o transporte público. Com uma alta concentração de pessoas, as redes públicas de mobilidade urbana estão muito longe de cumprir qualquer norma de distanciamento social. Na verdade, muitas cidades do mundo já estão planejando um futuro alternativo, substituindo muitas de suas faixas de tráfego por calçadas ou ciclovias. Promovendo uma distância segura e reduzindo a dependência de veículos automotores nas cidades, as medidas de caminhabilidade são um enorme incentivo a alternativas de mobilidade urbana mais sustentáveis. Com reduções drásticas nos níveis de poluição e mais pessoas fazendo atividades físicas regularmente, as cidades estão pressionando seus moradores a desenvolver um estilo de vida mais saudável, o que é essencial para o futuro de uma cidade. Em Paris, a prefeita Anne Hidalgo anunciou recentemente que a capital francesa está considerando manter algumas das medidas que restringem o uso de veículos automotores na cidade, as quais foram introduzidas durante o período de quarentena, transformando-as em novas ferramentas de combate a poluição e os congestionamentos na capital. Além disso, em Milão o projeto Strade Aperte ou “Ruas Abertas” transformará mais de 35 quilômetros de vias urbanas na cidade durante todo o verão, incentivando a sociabilidade e caminhabilidade do espaço urbano.

Economia: Limitar a circulação de veículos motorizados, privilegiando os pedestres e ciclistas, pode sim ter um efeito muito positivo na economia. Ruas mais agradáveis são mais movimentadas, e uma maior circulação de pessoas se reflete em um maior público de consumidores em potencial. Enquanto a pandemia vai deixando um rastro negativo na economia mundial, muitas cidades estão desenvolvendo soluções criativas para tentar minimizar os danos e os efeitos colaterais na micro economia. De fato, Vilnius, capital da Lituânia, decidiu alocar seus espaços públicos para bares e cafés, incentivando a reabertura de restaurantes sem descumprir as medidas físicas necessárias de isolamento. O escritório HUA HUA Architects imaginou uma proposta que busca reconciliar as pessoas e os espaços públicos, após o COVID-19. O programa Zona Gastronômica Segura visa despertar empreendimentos gastronômicos estagnados, regulando a alimentação em ambientes externos e garantindo as medidas de distanciamento social necessárias. Finalmente, o MASS Design Group lançou um projeto genérico com diretrizes indicativas voltadas aos bares e restaurantes. Com o intuito de promover a reabertura com segurança de muitos negócios ao redor do mundo, os arquitetos desenvolveram uma proposta gráfica baseada nas principais recomendações das principais organizações mundiais de saúde.




Os escritórios
À medida que as normas de isolamento vão sendo abrandadas e as empresas começam a reabrir as suas portas, os escritórios de arquitetura estão tendo que criar estratégias para poder voltar as atividades e botar seus escritórios para funcionar. Estudantes de arquitetura e profissionais recém-formados também estão enfrentando uma situação pouco usual, aprendendo a viver em um mundo repleto de incertezas. Apesar de estar operando a um ritmo mais lento, a maioria dos escritórios estão com seus projetos já muito avançados, isso porque as demandas começam a diminuir drasticamente a medida que a industria da construção desacelera. Vários países lançaram pacotes de auxílio às empresas do setor para que as mesmas possam seguir operando em tempos de crise, algo que definitivamente irá alavancar o surgimento de novas estruturas de trabalho e frentes de atuação.



A continuidade dos negócios: Nos Estados Unidos, o American Institute of Architects (AIA) lançou recentemente um Guia para a Continuidade dos Negócios, uma iniciativa voltada aos escritórios de arquitetura, definindo bases e formas alternativas de gestão em tempos de crise. Com o principal objetivo de ajudar as empresas de arquitetura a continuar operando e gerando receita, o guia do AIA apresenta uma série de novas ideias para lidar com a volatilidade do mercado e para uma melhor gestão dos recursos humanos, além de disponibilizar dicar para lidar com todos os autos e baixos que estão por vir. O documento lançado pelo American Institute of Architects repassa as estratégias utilizadas pelas empresas mais sólidas do mercado, incorporando uma série de lições aprendidas durante momentos críticos anteriores.

Estrutura do escritório: Ao passo que os escritórios começam a revisar suas possibilidades de ação e a prospectar novos clientes em potencial, também é preciso avaliar as estratégias operacionais da empresa, sua capacidade de trabalho e a gestão de seus funcionários. Com a chegada das novas tecnologias, talvez agora seja o melhor momento para implementar novos sistemas, aproveitando este momento para qualificar a sua equipe e agregar valor. Esta é uma ótima forma de investimento e principalmente, uma estratégia para minimizar riscos. Momentos de baixa podem ser úteis para identificar pontos vulneráveis e sanar problemas estruturais, tornando os processos mais eficientes para alçar voos mais altos no futuro. A gestão de uma empresa também inclui a contratação de novos profissionais, a busca por novos talentos até a qualificação e reciclagem dos profissionais com mais tempo de casa.

Modelos de trabalho: Em todo o mundo, empresas dos mais variados setores foram obrigadas a implementar uma rotina de trabalho remoto da noite para o dia. Para aqueles que ainda não estavam acostumados, tamanha mudança serviu para por à prova a resiliência e capacidade de adaptação do mundo dos negócios. Tais transformações, serviram para mostrar que a flexibilização dos horários e locais de trabalho nem sempre tem um resultado negativo na produtividade e eficiência da força de trabalho de uma empresa. A curto prazo, algumas mudanças apontam para uma considerável redução do espaço de trabalho, ou uma relação mais generosa entre números de funcionários e o espaço físico, de modo que, empresas de arquitetura e design serão provavelmente as mais afetadas por esta mudança de direção. Isso terá um impacto direto na maneira como os funcionários se relacionam e se comunicam, assim como na maneira como se contratam os novos colaboradores, gerando mais benefícios para aqueles que podem trabalhar sem sair de casa – pelo menos algumas vezes por semana. Efeitos a médio e longo prazo também terão consequências na gestão dos espaços físicos, nos sistemas de tecnologia da informação assim como, obviamente, dos recursos humanos.



Os indivíduos
Enquanto ainda é muito difícil ter uma idéia geral de tudo aquilo que mudou e tudo aquilo que ainda pode mudar, com as consequências diretas e indiretas desta crise de desdobrando das mais variadas formas e direções, fica claro que o mercado de trabalho para profissionais recém-formados é hoje um completo mistério. É claro que ainda há ofertas de emprego e novas oportunidades surgindo todos os dias, mas como a principal tendência é que as empresas procurem cortar custos e minimizar despesas, o mercado provavelmente se tornará ainda mais competitivo – uma consequência direta de uma recessão inevitável. Os mais jovens precisarão de muito jogo de cintura, entendendo que a arquitetura é muito mais do que apenas o produto da concepção e construção de edifícios. Este é o momento de explorar novas alternativas, buscar novos conhecimentos e descobrir os atalhos da profissão, ainda que estes caminhos nos afastem da tradicional forma de se fazer arquitetura.



Estudantes e jovens profissionais: Dependendo de onde você estuda, seja na universidade pública ou privada, o impacto desta crise sanitária pode ser completamente diferente. Ainda que o semestre já esteja perdido, é preciso pensar à longo prazo, pois momentos de crise são recorrentes e a recuperação econômica não se dá da noite para o dia, o mais provável é que, as consequências do atual momento se arrastem por pelo menos quatro ou cinco anos. À medida que as escolas de arquitetura estão migrando para o aprendizado online, isto com certeza terá um impacto significativo na forma como ensinamos os nossos alunos, os quais deverão se adaptar a estas novas modalidades de aprendizado. Para os jovens profissionais, é importante construir um bom portfólio que seja mais do que apenas um catálogo de projetos, mas que evidencie uma diversidade de interesses e capacidades, principalmente para jovens arquitetos e arquitetas. Aproveite ao máximo os professores que você tem na faculdade hoje, procure se engajar em suas linhas de pesquisa e explorar formas alternativas de atuação profissional, outra dica é aproveitar os diversos recursos gratuitos para seguir aprendendo e construindo o seu portfólio. O Royal Institute of British Architects publicou recentemente uma série de recursos específicos para estudantes de arquitetura. Iniciativas como esta servem como um alento à medida que encontramos algo útil que podemos fazer enquanto esta tempestade não passa. Tire um dia para pesquisar opções de bolsas de estudo e concursos disponíveis, vagas de emprego em universidades, estágios ou outras experiências alternativas de trabalho. Esteja ciente de que, de alguma forma ou outra, logo isso tudo vai passar.

Jovens Profissionais: Jovens profissionais, principalmente no campo da arquitetura, enfrentam desafios a muito tempo. Encontrar seu espaço no mercado de trabalho nunca foi algo fácil para nenhum de nós. Pensando nisso, o American Institute of Architects (AIA) lançou uma plataforma específica para jovens profissionais, apresentando uma série de tópicos informativos, desde concursos e recursos educacionais até dicas sobre seguro desemprego e assistência à jovens profissionais. A plataforma foi criada com o intuito de fornecer diretrizes e ferramentas para todos os arquitetos associados e é atualizada diariamente. O AIA incentiva os jovens profissionais a manter uma comunicação direta com os seus contratantes, a manterem seus postos de trabalho no exterior e seguir firmes em seus planos de carreira. Em termos de auxílio, nos Estados Unidos, o CARES Act é uma ajuda voltadas aos empregadores para que os mesmos disponibilizem um benefício aos seus estagiários e empregados completamente livre de taxação e impostos. Por último mas não menos importante, é preciso lembrar que em nossa disciplina não há apenas um caminho ao qual seguir, assim como não há apenas uma forma de se fazer arquitetura – e parece que essa forma de encarar a nossa profissão nunca foi tão apropriada.

Convidamos você a conferir a cobertura do ArchDaily relacionada ao COVID-19, ler nossas dicas e artigos sobre Produtividade ao trabalhar em casa e aprender sobre as recomendações técnicas para criar uma arquitetura saudável em seus futuros projetos. Além disso, lembre-se de revisar os conselhos e informações mais recentes sobre COVID-19 no site da Organização Mundial da Saúde (OMS).

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