O que será do paisagismo?

Como um morador de Los Angeles que não dirige, andar pela cidade a pé e de bicicleta sempre me fez sentir como se todos os lugares fossem meus.

Mas, nos últimos dois meses, os habitantes têm frequentado mais as ruas, como se todos tivessem descoberto pela primeira vez, que são capazes de explorar a cidade sem carro. Embora a maioria das praias e trilhas da cidade tenham sido fechadas, mesmo sendo reabertas, desde então, notei que o rio Los Angeles se tornou o novo "ponto de referência" da cidade, como um ponto de encontro, socialmente distante. Em uma cidade que não possui parques públicos adequados, as pessoas estão transformando qualquer pedaço de grama ou calçada - seja um pátio de uma escola, um canteiro central ou um trecho de concreto ao lado de um estacionamento - em um local de alívio da loucura.

No meio dessa pandemia, o espaço público está sendo colocado em foco. No último mês, Oakland, Seattle, Los Angeles e Milwaukee anunciaram novos e ambiciosos programas que promoveram a abertura das ruas, de forma a criar mais espaços de lazer e facilitar o distanciamento social seguro.

Parques, praças e outros espaços urbanos ao ar livre não são mais vistos como supérfluos, e finalmente foram reconhecidos como essenciais. E o mesmo acontece com os mentores por trás deles. Desde o início da pandemia, a arquitetura paisagística tornou-se uma das poucas áreas de otimismo, ainda cauteloso, no setor mais amplo da arquitetura, engenharia e construção, que está prestes a sofrer uma desaceleração.

A revista Metropolis conversou com alguns líderes do cenário da arquitetura paisagística, para ver como eles estão processando e reagindo à crise da saúde. A seguir apresentamos, os temas e ideias que eles estão discutindo no momento.

Repensar o envolvimento da comunidade e do público
Em março, logo após o início da crise e o início dos pedidos generalizados de abrigo, uma rede informal de empresas de arquitetura paisagística e planejamento urbano, incluindo a Agency L+P, Asakura Robinson, City Architecture, OHM Advisors, NSpiregreen, e a Interboro, se reuniram para descobrir o que significa conduzir um envolvimento público significativo e sensível na era do coronavírus. O grupo tem discutido como promover a consulta e o engajamento da comunidade, a partir de reuniões públicas, sessões de co-design e criação de modelos para plataformas digitais no futuro próximo.

De diversas maneiras, a crise está catalisando uma mudança tardia nas ferramentas que os arquitetos paisagistas e urbanistas utilizam para reunir as opiniões dos moradores, a base do co-design. Por muito tempo, o setor foi baseado em abordagens e metodologias de envolvimento da comunidade com tendências inerentes. “As reuniões públicas nunca foram realmente inclusivas”, diz Brie Hensold, da Agência L + P. Segundo a arquiteta, ao utilizarmos ferramentas digitais para ampliar a conversa, conhecer as pessoas e entender onde elas estão, os arquitetos paisagistas podem começar a tornar esse processo mais equitativo.

Embora as ideias discutidas ainda sejam emergentes, o processo já está começando a produzir alguns resultados novos. Para o projeto Graffiti Pier, na Filadélfia, o Studio Zewde está explorando o Instagram Live com convidados DJ's, de forma a envolver iniciativas locais e artistas de rua. Muitas empresas também estão recorrendo ao Zoom para realizar pesquisas e grupos com foco na comunidade, explorando o potencial das plataformas de grupos do WhatsApp e até podcasts, de forma a atrair uma faixa mais ampla das comunidades no processo de criação e planejamento.

Já outras empresas, estão aproveitando o período para fazer uma pausa produtiva em alguns projetos, levando seu conhecimento para ajudar as comunidades locais de outras maneiras. Por seu trabalho contínuo de criação de espaços públicos no Coachella Valley, na Califórnia, a KDI desenvolveu uma programação online que visa estender a interação social oferecida por parques e praças públicas para o mundo digital. Esse esforço resultou em um programa informativo semanal com Lives do Facebook e um desfile de carros alegóricos organizado para as cidades da região, incluindo North Shore, Meca e Oasis.


Redesenhar parques: menos projeto, mais programa
Chris Reed, do escritório de paisagismo Stoss, e Kinder Baumgardner, da SWA, preveem um desvio dos espaços altamente projetados, que se tornaram populares na arquitetura paisagística nos últimos anos. Essa mudança pode significar espaços mais amplos, grandes o suficiente para acomodar com segurança muitas funções e diversas pessoas, mantendo o afastamento social.

"Estamos sempre defendendo os clientes, embora eles estejam interessados em espaços para eventos, mas também precisamos projetar para aqueles momentos em que essas atividades não existem", diz Reed.

Em relação aos projetos atuais, a Stoss já está incorporando diretrizes de distanciamento social como uma inovação nos projetos. Em um trecho de 4,1 quilômetros na orla em Edmonton, Canadá, a empresa está testando projetos que criam diferentes níveis de caminhos lineares: duas ou três trilhas diferentes com largura e tamanhos variados, que podem acomodar diversos fluxos de pessoas simultaneamente e com segurança.

Os arquitetos paisagistas também preveem a "reorganização" dos espaços verdes urbanos existentes, já que os recursos e orçamentos de manutenção ficaram no limbo. Baumgardner acredita que o processo possa exigir técnicas de paisagismo que “possam atrasar e deixar que a [natureza] termine o processo”.

Arquitetos paisagistas precisam defender o bem estar comum
Enquanto os últimos dois meses demonstraram que a arquitetura paisagística inovadora é um recurso urbano crítico, orçamentos limitados e mudanças nas prioridades de financiamento das cidades significam que seu futuro permanece um ponto de interrogação. Ashley Langworthy, da Biederman Redevelopment Ventures, ressalta que um cenário de financiamento incerto exigirá que os arquitetos tenham uma maior compreensão e responsabilidade, em relação aos modelos de negócios, sustentabilidade financeira e manutenção de seus projetos.

Os arquitetos paisagistas também precisarão advogar e argumentar para promover a expansão dos parques e orçamentos de áreas de lazer, principalmente para abordar as desigualdades evidentes dos parques e acessos ao espaço público, que a crise ampliou. "Como convenceremos nossos líderes eleitos de que isso é importante?" diz Baumgardner.

Esse nem sempre foi o ponto forte do setor. Como Kathryn Gustafson comentou certa vez, "os arquitetos paisagistas são uma espécie sombria".

Como projetos-piloto, a adoção, cada vez mais rápida, das ruas abertas permitem que as cidades testem e implementem soluções rapidamente, será responsabilidade dos arquitetos e urbanistas insistirem para que estas soluções se tornem permanentes. "Este é um momento inesperado para testar estratégias, que as pessoas pensam há um tempo", diz Reed. "E cabe a nós, como arquitetos, sermos defensores dessas ideias na esfera pública e também, com nossos clientes".

Ryan Gravel, fundador da Atlanta Beltline e da consultoria de design urbano Sixpitch, continua otimista de que, se aproveitarmos corretamente, esse momento poderá ser crucial para impulsionar projetos ambiciosos e inclusivos para as áreas verdes. Além de, criar um impulso político por trás de projetos já em desenvolvimento, ele afirma, “não compro desgraça e tristeza a longo prazo para as cidades. Obviamente, há questões de curto prazo a serem resolvidas, e possíveis implicações. Mas ainda estou confiante no futuro das cidades."

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