Os recentes acordos firmados pelo Brasil com Índia e Coreia do Sul sobre minerais críticos reposicionam o País no centro de uma das agendas mais estratégicas da transição energética global. Em um cenário de reorganização geopolítica e busca por segurança no fornecimento, o movimento sinaliza que o Brasil pretende avançar além da exportação de commodities e disputar espaço nas etapas de maior valor agregado.
A relevância dessa agenda é estrutural. A demanda por minerais críticos deve triplicar até 2040, impulsionada pela eletrificação, pelas energias renováveis e pela digitalização da economia, segundo a Agência Internacional de Energia, dado destacado no estudo “Minerais Críticos do Futuro e o Papel Estratégico do Brasil na Transição para uma Economia de Baixo Carbono”, elaborado por AYA Earth Partners e Deloitte em 2025. O Brasil detém cerca de 10% (142 milhões de toneladas métricas) das reservas globais desses minerais, mas responde por apenas 0,09% da produção mundial — um descompasso que evidencia tanto o potencial quanto os gargalos estruturais da cadeia nacional.
A discussão sobre minerais críticos não é apenas mineralógica, mas industrial e estratégica. Em um contexto em que a China concentra mais de 60% do mercado global de refino, países como Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e membros da União Europeia buscam diversificar fornecedores e reduzir riscos geopolíticos. Para o Brasil, isso significa uma janela de oportunidade para se posicionar como parceiro confiável, sustentável e tecnologicamente competitivo, desde que avance em mapeamento geológico, segurança jurídica, capacidade de refino e qualificação profissional.
Caso o Brasil avance na produção e no refino, o impacto econômico pode alcançar até R$ 243 bilhões adicionais no PIB até 2050. “Minerais críticos são a base física da transição energética e digital. Nosso país tem vantagens comparativas claras, mas precisa transformá-las em vantagens competitivas, agregando valor, desenvolvendo processamento local e garantindo padrões socioambientais elevados. Não se trata apenas de exportar minério, mas de construir uma estratégia de neoindustrialização verde que gere empregos qualificados, atraia capital e fortaleça a soberania produtiva”, afirma Patricia Ellen, fundadora da AYA.
Os acordos com Índia e Coreia do Sul, portanto, devem ser entendidos como parte de uma estratégia mais ampla: alinhar diplomacia econômica, política industrial e agenda climática. Políticas públicas estáveis, marco regulatório claro, incentivos ao refino e à inovação, além de mecanismos financeiros capazes de reduzir riscos e atrair capital privado, serão determinantes para que o Brasil deixe de ser apenas um elo primário da cadeia e se consolide como protagonista global em minerais críticos — com ganhos econômicos, tecnológicos e ambientais de longo prazo.