O avanço das mudanças climáticas e a ocorrência cada vez mais frequente de desastres naturais no Brasil têm imposto novos desafios ao poder público e exigido planejamento urbano mais consistente nas cidades brasileiras.
O tema foi destacado durante o X Encontro do Fórum Norte e Nordeste da Indústria da Construção (FNNIC), encerrado ontem em Belém, pela diretora executiva da Caixa Econômica Federal, Daniele Mendonça. Durante o evento, a executiva alertou para o aumento das calamidades climáticas no país e ressaltou a importância de ampliar os investimentos em infraestrutura urbana para proteger a população.
Segundo ela, os efeitos das mudanças climáticas, que antes se manifestavam de forma mais localizada, hoje já impactam diferentes regiões do país. “Até 2022, o mundo já observava transformações importantes no clima, mas no Brasil o debate ainda era incipiente. Os eventos extremos estavam mais concentrados nas regiões Sudeste e Sul, com excesso de chuvas ou períodos de seca. Nos últimos anos, porém, essa realidade mudou de forma muito significativa”, afirmou.
De acordo com a diretora, acontecimentos recentes ilustram a dimensão do problema. Ela cita como referência as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul e lembra que, em 2025, mais de 10% dos municípios brasileiros registraram algum tipo de desastre climático.
“A partir de 2023 e 2024 presenciamos eventos muito marcantes, como a calamidade no Rio Grande do Sul. Em 2025, mais de 10% dos municípios brasileiros foram afetados por desastres. Isso mostra que a situação deixou de ser regionalizada e passou a atingir todas as regiões do país”, disse.
MEDIDAS
Diante desse cenário, a Caixa tem atuado em articulação com diferentes órgãos do governo federal para apoiar as populações afetadas. A instituição participa da identificação das áreas atingidas e da implementação de ações emergenciais voltadas ao atendimento das comunidades impactadas.
“Destaco dois pontos importantes: a atuação da Caixa em parceria com o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos e as Defesas Civis na identificação e avaliação das calamidades, e a iniciativa do Ministério do Trabalho que autoriza o saque imediato do FGTS para municípios em situação de calamidade reconhecida”, explicou.
Após o reconhecimento oficial da calamidade, o banco acelera o acesso aos recursos pelos trabalhadores. “Uma vez reconhecida a calamidade, a Caixa agiliza o processo e permite que o trabalhador solicite o saque do FGTS pela internet, sem precisar se deslocar até uma agência”, afirmou.
Além da liberação do FGTS, a Caixa também mobiliza estruturas emergenciais para atender diretamente a população nas regiões afetadas. “Também disponibilizamos caminhões-agência que atendem a população local, realizando pagamento de benefícios como o Bolsa Família e outros serviços essenciais para apoiar as comunidades afetadas”, destacou.
Durante a COP30, realizada em Belém em 2025, a Caixa apresentou um protocolo específico de atuação para situações de calamidade climática, com medidas voltadas a acelerar o atendimento às vítimas e dar suporte aos municípios atingidos.
DESAFIOS
Apesar das ações emergenciais, a diretora ressaltou que o principal desafio está no planejamento urbano para enfrentar eventos climáticos cada vez mais recorrentes. Segundo dados da Caixa, somente no último ano 662 cidades solicitaram auxílio por meio do “Saque-Calamidade”, sendo 100 delas na região Norte e outras 75 no Nordeste.
“Os dados de 2025 mostram um cenário alarmante. Todas as regiões do país foram afetadas por calamidades. As mudanças climáticas são inevitáveis, e por isso precisamos investir em infraestrutura, planejamento urbano e saneamento para tornar as cidades mais resilientes e proteger a população”, afirmou Daniele.
DIÁLOGO
Nesse contexto, ela também destacou a importância da participação do setor da construção civil e de fóruns de discussão como o FNNIC na busca por soluções estruturais para o futuro das cidades.
“A participação do Fórum Norte e Nordeste é fundamental para pensar projetos alinhados com esse modelo de cidades resilientes. Precisamos repensar a construção de moradias, a infraestrutura urbana e o saneamento, utilizando estudos e sistemas de monitoramento de desastres climáticos”, disse.
Para o presidente do Fórum, Marcos Holanda, esse diálogo entre autoridades, especialistas e o setor produtivo representa uma agenda estratégica e urgente para o país. “O Brasil é, na verdade, uma composição de diversas realidades regionais. A ausência de uma entidade regional forte, capaz de representar os interesses do Norte e Nordeste, trouxe dificuldades significativas. Até 2022, em uma década, cerca de 100 bilhões de reais que seriam investidos em projetos do programa Minha Casa Minha Vida nessas regiões foram realocados para as regiões Sul e Sudeste. Felizmente, observamos um progresso significativo, pois de 2022 a 2025, houve um aumento de 58% na quantidade de unidades habitacionais construídas pelo Minha Casa Minha Vida, um resultado que nos orgulha. Especificamente no Pará, o crescimento foi de 103% nesse período, e no Nordeste, o aumento foi de 101%. Esses dados comprovam a contribuição fundamental do fórum, bem como a efetiva absorção das discussões pelo Ministério das Cidades e pela Caixa Econômica Federal”, concluiu Holanda.
Foto: Talison Lima