Tradicionalmente associada a residências e edifícios de menor porte, a Madeira Laminada Colada (MLC) começa a ganhar novos campos de aplicação no Brasil. Em projetos recentes de infraestrutura, a Bacco Arquitetos vem explorando o potencial da madeira engenheirada como elemento estrutural em aeroportos e edificações de grande escala, articulando desempenho técnico, lógica construtiva e qualidade espacial.
Essa investigação se materializa de forma concreta na obra do Aeroporto Estadual Dr. Leite Lopes, em Ribeirão Preto (SP), e também em estudos desenvolvidos para outros terminais, como o Aeroporto de Fernando de Noronha, onde o material surge como resposta a desafios específicos de logística, transporte e implantação.
Infraestrutura como campo de experimentação
Segundo Marcelo Barbosa, sócio-fundador da Bacco Arquitetos, o interesse do escritório pela madeira engenheirada em aeroportos surgiu a partir de situações reais enfrentadas em projeto.
“O primeiro desafio que a gente teve na implantação de um projeto com o MLC foi um aeroporto pequeno, o aeroporto de Fernando Noronha”, explica.
No estudo desenvolvido para o terminal da ilha, as soluções tradicionalmente adotadas em aeroportos — como estruturas metálicas ou pré-moldadas de concreto — mostraram-se pouco adequadas. A ausência de um porto estruturado e a circulação limitada por vias estreitas dificultariam o transporte de grandes peças. Nesse contexto, a madeira apareceu como alternativa viável, por permitir o transporte em componentes menores e a montagem no local.
A experiência reforçou um desejo que já vinha sendo amadurecido pelo escritório: investigar o uso da MLC em infraestruturas, e não apenas em edificações residenciais.
Um material ainda pouco explorado no setor
Apesar do avanço da tecnologia e da consolidação de fornecedores especializados no país, o uso da madeira engenheirada em infraestrutura ainda é restrito. “No Brasil, a gente vê o uso do MLC mais focado em residências. A gente não vê muito o MLC usado em infraestrutura”, observa Marcelo.
A atuação da Bacco em programas como aeroportos, hospitais, fábricas e centros logísticos abriu espaço para testar o material em contextos mais complexos, nos quais a estrutura assume papel central na organização do edifício. “Quando você leva o MLC para esse tipo de programa, ele ganha outra dimensão, outra complexidade”, afirma o arquiteto.
Em obras: Aeroporto de Ribeirão Preto
No Aeroporto Estadual Dr. Leite Lopes, a madeira laminada colada foi adotada como estrutura principal da cobertura do novo terminal, permitindo vencer grandes vãos com precisão industrial e clareza espacial. À medida que a obra avança, a montagem dos pórticos em MLC evidencia a lógica construtiva do projeto: elementos pré-fabricados, modulados e preparados para instalação direta em canteiro.
Essa estratégia reduz interferências na obra, organiza o ritmo de execução e contribui para um avanço mais limpo e controlado — aspecto relevante em um aeroporto que permanece em operação durante as intervenções. A estrutura em madeira não é um elemento secundário, mas parte ativa do desenho arquitetônico, definindo escala, continuidade e legibilidade dos espaços internos.
Além do desempenho estrutural, a presença da MLC transforma a ambiência do terminal. A materialidade aparente da madeira introduz uma dimensão sensorial pouco comum em infraestruturas aeroportuárias, tradicionalmente marcadas por soluções mais neutras e industrializadas. O resultado é um espaço contínuo, luminoso e acolhedor, pensado para organizar fluxos intensos com fluidez e conforto.
Sustentabilidade associada à lógica construtiva
A escolha pela madeira engenheirada está associada não apenas à linguagem arquitetônica, mas também a critérios ambientais e produtivos. Por ser um material renovável, de menor pegada de carbono quando comparado a sistemas convencionais, a MLC contribui para estratégias de construção mais responsáveis — especialmente relevantes em obras públicas e infraestruturas de longa vida útil.
Além disso, a madeira exposta elimina a necessidade de revestimentos adicionais em muitos casos, atuando simultaneamente como estrutura e acabamento. O resultado é um ambiente mais sensorial e acolhedor, sem comprometer os requisitos técnicos de um aeroporto em operação contínua.
Técnica, cuidado e durabilidade
A adoção da MLC, no entanto, não é tratada como solução genérica. O arquiteto destaca que o uso da madeira exige cuidados específicos desde o desenho. “A madeira laminada colada não pode ser exposta ao tempo, a chuvas e intempéries”, afirma.
Estratégias como beirais, recobrimentos e proteção das fachadas fazem parte do projeto desde as etapas iniciais, garantindo o desempenho e a durabilidade do material ao longo do tempo. “Tudo isso precisa ser estudado, tudo isso precisa ser conversado”, completa.
Um debate em construção
Ao incorporar a madeira engenheirada em aeroportos e outros equipamentos de grande porte, a Bacco Arquitetos contribui para ampliar o debate sobre novos caminhos para a infraestrutura brasileira — mais atentos à racionalidade construtiva, às questões ambientais e à qualidade dos espaços de uso coletivo.
Mais do que uma escolha estética, o uso da MLC nesses projetos propõe uma revisão de paradigmas em um setor historicamente conservador, apontando para soluções que conciliam técnica, desempenho e uma relação mais sensível entre arquitetura e usuário.