A Inteligência Artificial vem se consolidando como uma
ferramenta estratégica na construção civil, do planejamento e orçamento à
análise de contratos, acompanhamento de cronogramas e gestão de riscos. Mas a
capacidade das empresas para implementá-la como um agente de transformação
ainda não acompanha o mesmo ritmo. Especialistas do mercado de construção
alertam que adotar IA sem processos estruturados e informações confiáveis pode
acelerar ineficiências em vez de melhorar decisões.
“As construtoras que não organizarem suas informações básicas antes de adotar a IA correm o risco de apenas acelerar processos ineficientes. A tecnologia pode aumentar exponencialmente a velocidade da informação dentro de uma construtora, mas velocidade não corrige informação ruim. Se os dados não são confiáveis, os processos não estão estruturados e a empresa não possui capacidade de controle, a tecnologia pode simplesmente fazer o erro circular mais rápido. Outros dois fatores comprometem a implementação: a escassez de mão de obra qualificada e um baixo histórico de adoção tecnológica do setor", assinala o engenheiro civil Renato Lerner, fundador da Elevare Capability, construtech especializada em inteligência organizacional para construtoras e incorporadoras.
De acordo com a Fortune Business Insights, o mercado global de IA na construção civil foi avaliado em US$ 4,86 bilhões em 2025 e a projeção é que cresça de US$ 6,02 bilhões este ano para US$ 35,52 bilhões até 2034. Segundo o Termômetro Falconi da Construção Civil, o uso da IA mais que dobrou no setor, saltando de 15% em 2023 para 38% em 2025. Já um estudo da Accenture indica que a IA pode aumentar os lucros da construção civil em aproximadamente 71% até 2035.
Por outro lado, a distância entre interesse e capacidade de implementação aparece também nas barreiras. O levantamento global AI in Construction Report 2025, realizado pelo Royal Institution of Chartered Surveyors (RICS) com mais de 2.200 profissionais do setor, mostrou que aproximadamente 45% das organizações ainda não utilizavam inteligência artificial em seus projetos e outras 34% permaneciam em fases iniciais de testes.
Segundo a pesquisa, menos de 1% relatavam utilização plenamente incorporada em toda a organização, 46% apontaram falta de profissionais capacitados, 37% citaram dificuldades de integração com sistemas existentes e 30% indicaram problemas relacionados à qualidade e disponibilidade dos dados.
O Informe Ascendat de Maturidade Digital, realizado anualmente pela consultoria de tecnologia e transformação digital Minsait com 900 organizações de diferentes setores e países, apontou forte interesse da construção civil na tecnologia: 83% das empresas do setor consultadas enxergavam a IA como ferramenta para melhorar eficiência e 60% declararam utilizá-la para melhorar gestão e planejamento de projetos. Por outro lado, na pesquisa da RICS pouco menos de 12% relataram uso regular de IA em processos específicos, enquanto a utilização em múltiplos processos permanecia em 1,5%.
Lerner reforça que o principal desafio do setor não é a tecnologia em si, mas a falta de dados organizados e a resistência a uma cultura de gestão orientada por informação. Para ele, em uma construtora os dados relevantes podem estar distribuídos entre orçamento, planejamento, compras, financeiro, contratos, campo e direção e, se cada área trabalha com uma versão diferente da realidade, a IA não elimina automaticamente a inconsistência.
“A vantagem competitiva não estará simplesmente em ter inteligência artificial. Estará em construir uma empresa capaz de transformar dados confiáveis em decisões melhores e utilizar a IA para fazer isso com uma velocidade que antes não era possível”, pontua.
"Três perguntas deveriam anteceder qualquer projeto relevante de inteligência artificial na construção civil: os dados utilizados pela empresa representam de forma confiável o que está acontecendo nas obras? A informação chega à liderança com velocidade suficiente para permitir uma decisão? As previsões produzidas pela organização costumam se confirmar na realidade?", questiona.
Lerner acumula mais de 30 anos de atuação em construção e incorporação no Brasil, em Angola e nos Estados Unidos e enxergou uma oportunidade de criar a construtech para apoiar pequenas e médias construtoras a fazer da inteligência artificial o motor de seus negócios, melhorando performance, gestão e lucratividade.
Sua proposta central consiste em identificar, por meio de inteligência artificial e indicadores próprios, quando uma organização está crescendo com velocidade superior à capacidade que sua estrutura administrativa suporta, um dos fatores críticos e silenciosos que deflagram crises de liquidez na construção civil.
A metodologia combina aproximadamente 90 perguntas direcionadas aos tomadores de decisão com análise preditiva e prescritiva orientada por IA, gerando relatórios capazes de apontar pontos críticos antes que comprometam a solvência do negócio.
A plataforma foi dimensionada para companhias com estrutura entre 30 e 300 colaboradores e faturamento anual na faixa de R$ 30 milhões a R$ 500 milhões. O modelo de atuação contempla programas de acompanhamento de 90, 180 e 360 dias, monitorando a evolução de métricas por dashboards dinâmicos e disparo de notificações operacionais. No núcleo do sistema opera o indicador Buffer™, algoritmo desenhado para quantificar o alinhamento entre complexidade de projetos e musculatura gerencial.
"Um Buffer™ negativo sugere que a Organizational Fragility™ pode já estar se desenvolvendo e que medidas urgentes precisam ser tomadas. Uma empresa pode crescer e, ao mesmo tempo, reduzir sua margem de segurança. Crescimento não significa necessariamente fortalecimento. É justamente nesse contexto que pretendemos atuar. Nossa plataforma foi criada para medir o equilíbrio entre a complexidade operacional da empresa e sua capacidade administrativa. A Elevare Capability é mais do que um software. Ela nasce como uma plataforma de diagnóstico e acompanhamento estratégico", explica.
A criação da Elevare é o desdobramento natural de uma carreira construída em diferentes continentes. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Pernambuco em 1997, Lerner fundou a Lerner Engenharia, atuou simultaneamente em grandes projetos de telecomunicações, presidiu uma construtora em Angola por mais de uma década e, desde 2015, reside nos Estados Unidos, onde fundou a Invision Real Estate Investments, focada no desenvolvimento de empreendimentos residenciais de alto padrão na Flórida.
Essa vivência em cenários macroeconômicos e regulatórios distintos fundamentou sua convicção analítica: embora os entraves executivos e técnicos dos projetos sejam similares internacionalmente, a precisão da governança e da gestão de dados define a longevidade financeira dos negócios. Ao transpor essa bagagem empírica para um ecossistema digital, a construtech propõe que a sinergia entre engenharia tradicional, controles analíticos e algoritmos de IA resguarde as companhias de médio porte contra a volatilidade estrutural da indústria.
“Uma empresa pode ter dashboards sofisticados e ainda descobrir seus problemas tarde demais. Nosso objetivo não é produzir mais informação. É reduzir a distância entre o que está acontecendo na operação, o momento em que a organização percebe e a hora em que consegue agir", finaliza.