O setor da construção civil é um dos maiores geradores de resíduos do Brasil. Estimativas do Conselho Nacional do Meio Ambiente indicam que os descartes de construção e demolição representam entre 50% e 70% do volume total de resíduos sólidos urbanos produzidos no país. Durante muito tempo, esse dado foi tratado como uma característica inevitável do setor. Hoje, porém, é visto como um problema com solução, e as empresas que entenderam isso primeiro estão colhendo vantagens que vão além da conformidade legal.
Muito além de uma obrigação regulatória, a gestão de resíduos na construção civil atualmente é também uma alavanca de eficiência operacional e competitividade. Construtoras que adotam práticas estruturadas de redução e reaproveitamento de resíduos relatam ganhos concretos em custo, prazo e qualidade, além de um posicionamento mais sólido junto a clientes e investidores que priorizam critérios ambientais na escolha de parceiros.
Esse movimento tem raízes em uma mudança de perspectiva dentro dos canteiros de obras. O desperdício de material, que antes era absorvido como custo operacional natural, passou a ser encarado como ineficiência mensurável e corrigível. Argamassa misturada em excesso, cortes de revestimento sem planejamento, embalagens descartadas sem reaproveitamento: cada um desses pontos representa uma perda que, somada ao longo de uma obra, pode comprometer de forma significativa a margem do projeto.
"A redução de resíduos começa na especificação. Quando o produto certo é escolhido para cada aplicação, com o rendimento adequado e a orientação técnica correta, o desperdício cai de forma natural. Não é apenas uma questão ambiental, mas sim de eficiência de obra", afirma Talisa da Conceição, Coordenadora de Projetos da Viapol, uma das principais empresas brasileiras especializadas em soluções para a construção civil.
Neste processo, as indústrias têm um papel importante. Na Viapol, o Departamento de Especificações e o Departamento Técnico atuam no apoio aos profissionais da construção, desde a análise das necessidades do projeto e definição dos sistemas até as orientações relacionadas à aplicação. O objetivo é contribuir para que a escolha da solução considere não apenas o produto, mas as características e condições reais de cada obra.
Do lado dos fabricantes, o desafio também está em desenvolver soluções que conciliam desempenho técnico, durabilidade, eficiência de aplicação e aspectos ambientais. Nem sempre utilizar menos material significa gerar menor impacto. Uma análise mais completa precisa considerar fatores como vida útil, necessidade de manutenção, possibilidade de reparos pontuais, condições de aplicação e o desempenho esperado para cada sistema.
Soluções com maior durabilidade, por exemplo, podem contribuir para reduzir a frequência de intervenções e a necessidade de substituição de materiais ao longo da vida útil de uma edificação. Da mesma forma, determinadas tecnologias podem contribuir para o conforto térmico e, dependendo das características do projeto e das condições climáticas, auxiliar na redução da necessidade de climatização.
A agenda de sustentabilidade também tem influenciado as decisões de compra. Incorporadoras e construtoras com metas de ESG passaram a exigir dos fornecedores informações sobre a pegada ambiental dos produtos e as práticas de descarte das embalagens, criando um ciclo em que a demanda por materiais mais sustentáveis incentiva a inovação em toda a cadeia.
"Construir com menos desperdício é mais do que uma resposta às pressões ambientais. É uma forma mais inteligente de executar projetos, que beneficia o resultado da obra, reduz custos e fortalece a reputação de quem atua no setor", finaliza Conceição.